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Eduardo Valente esculpe e desenha com a ajuda de um iMac

:: por Redação macmais :: 19/02/2010 :: Deixe um comentário

Por Sérgio Miranda*

Todo desenhista que se preze já pensou muito seriamente em trabalhar fazendo histórias em quadrinhos. Mesmo quem nunca passou dos primeiros rabiscos sonhou em dar vida a heróis de papel. Com Eduardo Valente não foi diferente. Já aos 13 anos, ele se aventurava pelas páginas dos gibis, mas, como tudo na vida não é eterno, sua arte também foi crescendo e se modificando. Dos primeiros trabalhos na Vetor Lobo, criando bonecos e pinturas para storyboards de um longa-metragem de animação, até sua primeira exposição individual, usando chapas de raio x como suporte artístico em 2007, muita coisa aconteceu.

“Minha primeira experiência como artista foi uma exposição realizada nos Estados Unidos, onde fiz intercâmbio”, lembra Eduardo. Foi lá que começou a expandir os horizontes e passou a usar outros materiais, como cerâmica. Depois disso, formou-se em Desenho Industrial pela Escola de Belas Artes e aprimorou suas técnicas de escultura clássica com Cícero Davilla. A mãe, arquiteta, também faz peças artesanais, mas isso não garantiu imediata aprovação familiar. “A vida de artista é muito incerta”, afirma. Única certeza é seu companheiro de trabalho, um iMac. “Já usei PC com Windows, mas só no Mac sinto segurança”, garante o artista.

Leia abaixo os melhores trechos de nossa entrevista com Eduardo Valente.

MAC+ Você precisou sair do país para começar a gostar de arte?

Eduardo Valente Comecei a desenhar quadrinhos com 13 anos. Estudei na ABRA (Academia Brasileira de Arte) e fiquei aprimorando meu traço até que, aos 16 anos, fui parar na Vetor Lobo. Fiquei lá um ano e aprendi bastante. Trabalhava com storyboard de animação e participei de vários filmes de stop motion, além do trabalho de ilustração. Então, fui para Oregon, nos Estados Unidos. Foi lá que descobri uma vontade muito grande de trabalhar com a parte artística, já que os americanos são muito incentivadores e as aulas de arte eram bem interessantes. Quando voltei, comecei a trabalhar em uma agência e entrei na Escola de Belas Artes. Fiz muitas coisas, até uma marca de roupa montei. Posteriormente, trabalhei com o Indio San, que faz um trabalho bacana, autoral. Trabalhei com ele por uns quatro ou cinco meses. Aí, decidi trabalhar com peças pessoais, em uma parte mais artística.

MAC+ Como você vê a  tecnologia na arte?

EV Acho que é importante, mas muita gente se perde nisso. A tecnologia dá um suporte e faz com que o trabalho fique mais rápido. Numa ilustração, por exemplo, muitas vezes acontecem alterações de cor, de textura etc. Se eu tiver de refazer  mudando a técnica, vou perder muito tempo. Acho que é mais importante pela rapidez, pela organização, pela segurança que te dá ter um arquivo PSD e depois poder mexer nas cores, texturas, diagramar, mudar de lugar.

MAC+ Em qual canvas você se sente mais à vontade, o físico ou o digital?

EV Sinto-me muito mais à vontade no canvas físico, com a tela, a madeira. Eu tenho uma relação tátil com o negócio pronto. Lógico que no computador você consegue imprimir em papéis bacanas, e esse é o legal da parte gráfica, ele é bem abrangente. Acho bem interessante ter seu trabalho impresso em um superpapel, que brilha, com instrumentos diferentes. É algo que nunca termina, há sempre uma novidade. Agora, existe até impressoras 3D, em que você faz o boneco e imprime. Mas tenho uma relação grande com a parte física, gosto de tocar minha arte.

MAC+ Há quanto tempo você usa o computador?

EV Desde o 386, por aí.

MAC+ Você usou um PC e depois passou para o Mac. Como foi essa transição?

EV Quando fui trabalhar em agência, a maioria dos funcionários usava Macintosh. Fui me adaptando e, para mim, é muito melhor trabalhar com Mac, porque não tem vírus, sinto uma segurança muito maior em mexer nele. Tem o design também, o Mac não parece um Frankenstein, cujas peças você vai encaixando até ter um negócio estranho em cima da mesa. O Mac tem uma lógica: o desenho, onde colocar as portas USB, todos os cabos, a embalagem… E eu gosto muito da parte de organização no sistema.

MAC+ Você está montando uma exposição agora. Já fez alguma outra?

EV Ao todo, foram nove ou dez. A primeira séria aconteceu nos Estados Unidos, em que se apresentavam os melhores trabalhos estudantis do Estado do Oregon; depois, participei como convidado com esculturas pequenas na Aliança Francesa. Houve uma exposição na Casa da Fazenda, individual. Fiz uma também em um prédio do Villa-Lobos, uma no Forte de Copacabana (vendi um quadro para o Chico Caruso lá!), uma exposição coletiva no Memorial da América Latina e uma no World Trade Center.

MAC+ Todo artista tem um espelho. Ele se baseia em alguma coisa que já viu e diz algo como “Pô, acho que esse é o meu caminho”. Qual foi o seu espelho?

EV Foram vários espelhos. Eu tive uma relação muito grande com os caricaturistas brasileiros Chico Caruso, Paulo Caruso, Cássio Loredano, Ziraldo, entre outros. Gosto muito de Francis Bacon, do Norman Rockwell, acho que ele é um artista que tinha muita relação com os caricaturistas brasileiros, pois dava muito valor ao seu país, à sua cultura, e os personagens eram bem caricatos.

MAC+ E as esculturas?

EV Admiro muito o Rodin. E a relação entre o bidimensional e o tridimensional acontece muito na minha obra, em que você vê um desenho bidimensional e o transforma em um desenho tridimensional.

MAC+ Eu percebo aqui que esta escultura…

EV Esta não está pronta ainda, é o Miles. Miles Davis.

MAC+ E tem ali o Ariano Suassuna. E como você falou dos caricaturistas, o que me chamou atenção, na verdade, nessas duas esculturas em particular, é que são figuras de pessoas. Então é o seu lado caricaturista na argila?

EV Sim. O 2D foi sempre um embrião para mim, é onde estudo as formas. Fiz o desenho do Ariano antes, a partir de várias fotos, fiz um estudo sobre o rosto e depois tridimensionalizei, porém com características da caricatura, com orelha descendo, sobrancelha e nariz grande. O próximo que eu queria fazer era o Rivaldo, mas como um gafanhoto. A ideia veio quando eu estava assistindo ao Rock Gol e estavam narrando a escalação de um time. Aí falaram: Rivaldo, o gafanhoto brasileiro!

MAC+ Com qual das duas artes, escultura e pintura, você tem um prazer maior de trabalhar?

EV Eu gosto dos dois. Acho que o parto das esculturas é bem mais dolorido. Desenho é um processo mais rápido.

MAC+ Qual é seu personagem preferido de quadrinhos?

EV Os quadrinhos que mais me influenciaram foram do Greg Capulo, o desenhista do Spawn. Depois, os do Todd McFarlane.

MAC+ Engraçado, você é o segundo artista que me fala isso!

EV Ah, ele é muito caricato. Ele é  muito bom, as câmeras são muito boas, as expressões…

MAC+ Você ainda tem alguma ligação com o mundo das HQs?

EV Gosto bastante. Eu compro pouco, mas acho interessante. Gosto muito de Moebius, Os Gêmeos (Gabriel Bá e Fábio Moon) são muito bons, sempre sigo o blog deles. Não sou um comprador assíduo, comprei muito quando era mais novo, na época em que estudava. Hoje, compro mais livros de arte. O que eu gostava no Capulo é que eram pessoas mais comuns, você pega hoje, só tem modelão. No Spawn, havia pessoas comuns, da rua, eu achava interessante.

MAC+ E como foi ser um artista empresário?

EV Na empresa de camisetas, eu ficava com a parte de criação, desenvolvia as ideias, o processo e conversava com os sócios. Um dos caras tomava conta da parte de produção e o outro cuidava de vendas e divulgação. Eu tinha uma liberdade grande, chegava a um tema, participava do processo de produção em Campinas, via cor… Eu não mexia com números.

MAC+ Qual foi seu primeiro Mac? O seu?

EV Meu, mesmo, foi um Mac mini. Na agência, eu trabalhava com um iMac G3. Posteriormente, mexi com o azul e branco, fui para um G4 e, por fim, o  mini.

MAC+ Hoje em dia, o que o Mac representa para você?

EV Organização e segurança. É o que o computador me passa. E qualidade de imagem, não posso me esquecer disso.

MAC+ Você desenha diretamente no computador?

EV Muitas vezes o processo começa no computador, pois, geralmente, pesquiso e imprimo. Mas já fiz escultura olhando para o monitor: eu abria várias imagens do Ariano, colocava-as em uma bancada e olhava para a tela. Digitalizo a maioria das coisas, trato as imagens no Photoshop e passo para o site depois.

MAC+ E marcas, é tudo no computador?

EV Faço vários elementos à mão, mas o computador é essencial. Eu desenho, digitalizo e finalizo no Mac. À mão, chegam a ser uns 15%. O computador acrescenta texturas que você pode não ter à disposição no momento, como uma cor, tecido ou madeira. Trabalhar isso no design gráfico é muito bom.

MAC+ Alguém da sua família trabalha com artes?

EV Minha mãe é arquiteta e tenho um tio baixista. O resto é administrador, economista…

MAC+ Como foi chegar para a sua família e dizer: “Quero ser arista”?

EV A vida de artista é muito incerta, acaba absorvendo muita coisa. Você está em contato com pessoas, faz uma leitura do cotidiano, dos demais ao seu redor, do seu humor e lida com isso. É mais difícil, é preciso vender sua obra, expor-se. Em casa é difícil, mas fazer o quê? Não consigo não fazer isso. Já trabalhei com muita coisa, com animação, marca, publicidade, mas trabalhar em estúdio, em baia…  não consigo.

MAC+ E a pressão do tipo: preciso terminar esta obra para uma exposição!

EV Tem pressão em produzir. Eu desenho muito, faço uns três projetos simultâneos. Mas desenhos grandes demoram.

MAC+ Como é vender uma obra?

EV Sinto que é um filho indo embora. Mas, ao mesmo tempo, é a valorização de algo que você fez.

MAC+ Lá no fundo, você não sente vontade de fazer história em quadrinho?

EV Lógico! Já até tenho uma história, de um cara que vem do Nordeste para São Paulo, foi parar na periferia e, para passar o tempo, foram nascendo bocas no rosto dele. Uma falava coisas tristes, outra dizia coisas felizes, uma cantava e outra gritava. E ele acabou recluso em casa, porque as pessoas o achavam muito estranho. Ele tem um amigo, que é uma barata, tem uma planta que fala e um outro amigo que é um “espelho” do qual todos gostavam. Mas ele não podia sair às ruas porque não conseguia relacionar-se com as pessoas. Esse é meio que o embrião da história.

*Matéria originalmente publicada na MAC+ 45.

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