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Uma retrospectiva sobre montagem de Macs no Brasil

:: por Redação macmais :: 22/04/2013 :: Deixe um comentário

por Mario Amaya (@marioamaya)

Matéria publicada originalmente na macmais 81.

Há quase dois anos, tratamos aqui do assunto “Fábrica da Apple no Brasil”. Voltamos agora ao tema, com uma perspectiva mais histórica.

Em 1996, comprar um Mac no Brasil começou a parecer coisa normal, finalmente. Antes, possuir um computador da “Êipou” para uso doméstico era simplesmente proibido, devido à lei de reserva de mercado de informática – que na prática entregou o setor inteiro de informática a fabricantes de clones baratos de PCs. Os Macs só entravam legalmente em empresas da área gráfica. O resto deles vinha na bagagem de gente abonada que viajava ao exterior.

Em 1995, a situação já tinha começado a mudar. A Apple instalou seu escritório em São Paulo e investiu o primeiro ano na montando de um esquema centralizado de importação e distribuição. O modelo adotado foi, em parte, a continuidade do que existia antes – revendas seguiram funcionando como representantes diretas da marca –, mas com a importação legal e distribuição interna, foi possível oferecer benefícios básicos, como parcelamento e pronta entrega dos produtos, garantia (bem limitada) e assistência técnica (ainda mais limitada). Claro que as margens elevadas e o imposto escorchante embutidos na etiqueta de preço ainda davam argumentos para os “pecezistas” chamarem os adeptos da maçã de “MacOtários”, além de manter os mais fanáticos propensos ao risco no contrabando. Mas pelo menos agora a Apple tinha uma presença por aqui e havia a quem reclamar. Mesmo que ela só fingisse ouvir.

A Apple Brasil vendeu muitos Macs a novos clientes; mas em termos de construção de marca, ela falhou durante toda a sua primeira meia década no país. Algumas coisas que estavam nos planos em 1996 nuncarolaram. Por exemplo, o recrutamento de 200 desenvolvedores de software locais pelo DRC em 1997. A produção intelectual dedicada à plataforma da Apple em português nunca chegou a ser extensa, e o inglês permaneceu sendo a língua predominante do Mac até chegar a era do OS X.

Os Macs 6320 e 6360 foram
montados no Brasil durante um brevíssimo período
entre 1996 e 1997. Eram modelos considerados muito
básicos e dirigidos ao uso doméstico nos EUA, mas
os brasileiros envolvidos com a plataforma estavam
dispostos a empregá-los (e aturar sua defi ciência
de desempenho) em usos profissionais, devido à
falta de opções mais acessíveis. Executado durante
a pior fase da Apple, o plano tinha a intenção de
expandir a base instalada de Macs no país a qualquer
custo. O iPhone brasileiro chegou em uma situação
incomparavelmente mais confortável

No entanto, a fabricação nacional de Macs chegou a acontecer. Ficou por conta de uma empresa chamada Group Technology, com a planta localizada em Sumaré, no interior de São Paulo. Basicamente a empresa era uma integradora e montadora, sem nenhum papel no desenvolvimento. A produção começou no final de 1996, e os modelos escolhidos foram o Performa 6320 e o 6360. Para as necessidades dos profissionais criativos – o público que mais defendia a plataforma –, eram dois modelos fracos, que mal davam conta da tarefa. Mas seu preço era bem mais palatável que os dos Power Macs e muita gente sujeitou-se a usar o Mac “errado” a fim de não pagar tão caro por um modelo importado. Além de auxiliar a penetração no varejo e também no mercado educacional, de importância crucial para a empresa na época, a montagem de Macs em solo brasileiro trazia um abatimento de 22% no imposto governamental. Isso melhorava muito a margem de lucro dividida entre revenda, distribuidora e Apple Brasil, e ainda permitia baixar (só um pouco) o preço para o consumidor.

Nas feiras Fenasoft dos anos de 1996 e 1997, muitos Performas foram vendidos em liquidação para usuários domésticos. Devem ter dobrado a base de usuários de uma semana para outra, só que à custa de uma grande insatisfação coletiva, devido à deficiência no pós-venda e na assistência técnica. Os Macs eram vendidos como se fossem PCs; mas seu público altamente exigente esperava um outro tipo de atenção da parte da companhia.

No começo de 1997, a decisão do Ministério da Educação brasileiro de adquirir para as escolas públicas federais 100 mil PCs com processadores Pentium e rodando Windows caiu como uma bomba sobre os planos da Apple Brasil, que chegou a divulgar um manifesto indignado reclamando da medida, pois ela fechava a porta às “plataformas alternativas” (teria sido mais persuasivo dizer apenas que o Mac era melhor que o PC, não?). No mesmo momento em que isso acontecia – março de 1997 – a matriz da Apple nos EUA cortava 2.700 funcionários fixos e 1.400 temporários. A equipe brasileira, que já era minúscula, foi reduzida para meia dúzia de pessoas. Esse corte brutal veio acompanhado do cancelamento da montagem de Macs no Brasil, após apenas quatro meses. Uma publicação especializada comentou na época: “Durante seu primeiro ano de vida, a Apple Brasil teve como objetivo principal o aumento da base instalada. Talvez seja o momento de focar os esforços e recursos que restaram no aumento da satisfação de seus usuários”.

Os esforços de reestruturação da Apple feitos pelo recém-tornado à casa Steve Jobs, ainda sob a administração de Gil Amelio, foram recebidos com choro e ranger de dentes por toda parte. Fim do licenciamento para fabricantes de clones. Cancelamento de incontáveis modelos de Macs. Fim de todos os periféricos. Morte do Newton. Demissões intermináveis. Só vinham notícias assustadoras, e agora nem eram coisas fundamentalmente ruins; pelo contrário, eram as medidas necessárias para ressuscitar a companhia. Entre elas, uma das mais importantes foi a aquisição da melhor dentre as fabricantes de clones de Mac, a Power Computing, e a assimilação de seu modelo de venda direta ao consumidor. Dessa maneira, a loja virtual da Apple já começou madura.

Enquanto isso, no Brasil, a Apple não tinha nenhuma intenção de fazer venda direta para clientes que não fossem os corporativos herdados da era anterior (editoras, agências de propaganda, estúdios musicais,gráficas e bureaus). O atendimento ao consumidor doméstico ficou para redes de eletrônicos como Fast Shop e Extra, somadas a algumas corajosas lojas de rua montadas por revendas autorizadas, que durante algum tempo tiveram um sucesso razoável. Em 1998 houve a primeira feira promovida pela própria Apple, em substituição à participação na Fenasoft.

E então veio a ressaca: a maxidesvalorização do real no início de 1999 condenou a maior parte dessas iniciativas, ao erodir a margem de todo o comércio relacionado ao Mac. A direção da Apple no Brasil mudou de mãos três vezes em um ano. A manufatura local continuou a ser citada insistentemente como uma solução mágica para todos os problemas – meio como aquela lembrança fugidia de um sonho na manhã seguinte – mas os planos não saíram mais da declaração de intenções.

Em novembro de 2001 a Apple voltou finalmente a diversificar seus produtos com o iPod, mas a subsidiária da companhia no Brasil sabia vender apenas computadores, não eletrônicos de consumo “puros”, como aparelhos de som. Para piorar, no período de 2001 a 2003 a indústria de computadores  estava em recessão e o mercado brasileiro avançou com o freio de mão puxado, devido ao desnível cambial.

Ironicamente, a Apple passou a crescer muito mais no mundo por conta de seus produtos não-Mac que pelo Mac em si. Isso explica porque o produto que eventualmente voltou a ser fabricado com a marca Apple no Brasil é um iPhone e não um Mac.

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