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Breque ligeiro

:: por Redação macmais :: 16/11/2009 :: 2 comentários

Fotos: Zé Ovo

42-macartista-1Os paulistanos mais antigos ainda se lembram do orgulho que era entoar as primeiras frases da canção: “É sempre lindo andar na cidade de São Paulo”. A música, do grupo Premeditando o Breque, que depois ficou conhecido como Premê (“encurtamos por que era mais prático, mais pop, né?”) virou hino, canção de comercial e muito mais. Na época, meados dos anos 1980, a música brasileira passava por um momento de transformação. E Mario Manga, um dos fundadores do Premê, estava no meio do turbilhão do movimento que ficou conhecido como Vanguarda Paulistana.

Nascido e criado no bairro do Ipiranga, Manga fez faculdade de música na ECA (Escola de Comunicação e Artes da USP) depois de tentar três meses estudando Física em São Carlos. “Eu queria muito ser Físico, muito”, lembra o músico. Em 1976, com os amigos Klaus Petersen, Marcelo Galbetti, Wandi Doratiotto (“que chegou um pouco depois, mas tudo bem”) e a participação do Adriano Brusko montaram o Premeditando o Breque, e seria um dos expoentes da nova MPB, apesar de andar meio sumido. “As pessoas perguntam se o grupo morreu e eu digo que não, que está hibernando”, conta Manga.

Além do Premê, Mario Manga também foi integrante do Música Ligeira, trio musical formado em parceria com Rodrigo Rodrigues e Fábio Tagliaferri, e também compõe trilhas para comerciais e filmes. Tudo em um Macintosh, claro, apesar do começo claudicante em um PC com Windows (“Mudei porque não aguentava mais o PC!“).

Leia a seguir os melhores momentos da entrevista.

MAC+ Qual foi seu primeiro instrumento?

Mario Manga Guitarra elétrica.

MAC+ Pulou o violão e foi direto pra guitarra elétrica?

MM Foi assim, começou com violão, mas eu tinha uma guitarra elétrica, ganhei do meu pai.

MAC+ Você lembra o modelo?

MM Se não me engano, era uma Phelpa.

MAC+ Idos da Jovem Guarda?

MM É, isso! Era a década de 1960. Acho que foi em 1968, por aí.

MAC+ Uma coisa meio Tropicália, Mutantes…

MM É, eu adorava os caras! Sempre autodidata, ouvindo e tirando as músicas. Eu ouvia o que a moçada ouvia naquela época, Beatles, Led Zeppelin, Rolling Stones, Jimmy Hendrix, Yes, essa turma. Depois entrei na ECA, fiz Composição.

MAC+ Você formalizou a música lá?

MM Sim. Eu tive aula de violão e estudei com o Nelson Cruz, que era um ótimo professor de violão. Na ECA aprendi violoncelo e já tocava guitarra. Foi na ECA que nasceu o Premeditando o Breque. Casei naquela época. Eu tocava em bailes, gravações em estúdio, depois veio o Premê, que começou a dar certo e larguei os bares. Depois disso, montei uma outra banda chamada Música Ligeira, era um trio muito bacana, uma coisa mais cult. O Música Ligeira acabou porque o Rodrigo, que era um dos integrantes, morreu, e a gente parou. Toquei com Arrigo Barnabé, que era meu amigo da ECA, com Ivan Lins, Chico César, atualmente toco com Arnaldo Zeti, com o Carlos Careqa, de vez em quando a gente se junta e faz alguma coisa, mas não é uma banda. Meu trabalho agora é mais um trabalho de estúdio.

MAC+ Como você vê a música atual? É só tecnologia?

MM Vou ser sincero com você, eu sou da antiga. Tenho 54 anos. Eu não sou resistente, adoro a tecnologia. Eu estava conversando com uns amigos sobre como se ouve música hoje em dia. As pessoas ouvem música de uma maneira diferente. Como tudo é mais rápido, você tem toda sua discoteca em um iPod. É diferente, as pessoas ouvem na rua o tempo todo e ninguém ouve uma música até o fim, por exemplo. Escutam um pedacinho e partem para outra. Não há necessidade de ouvir quatro mil músicas. Eu acho melhor se ouvir uma música bem do que ouvir 12 em pedaços. Músico é chato com música, a gente tem essa visão técnica que vai além, mas também existe um carinho pela linguagem musical, pela música, pela Santa Cecília, nossa padroeira, essa vontade de entrar dentro da coisa.

MAC+ Acabou aquele respeito pelo ato de ouvir música…

MM Você não pensa “vou parar e ouvir música”. Você escuta música no metrô porque é o tempo que tem. Você dá uma pescadinha, está com sono, pensando em outras coisas, não está realmente prestando atenção na música. Ela é um refresco, quando, na verdade, a gente deveria parar para ouvir a música. Quando você consegue mergulhar na música, fechar o olho e viajar, acho que a música cumpriu sua função básica. Se o cara gosta do Axé e se mistura com a música tanto dançando como ouvindo, é isso! E outra coisa que falta, além da parada do tempo, é o som na caixa. Acho que os fones de ouvido, apesar deles terem uma qualidade alta, atrapalham, falta aquela pressão que vem no deslocamento do som. Você sente o baixo quando se ouve alto, é maravilhoso! Mas isso é coisa de gente antiga, de quando se ouvia LP.

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MAC+ Quando você começou com o Premê, aquilo era revolucionário, diferente. Como você se sente sendo parte dessa mudança toda?

MM A nossa ideia na época era tocar. Simplesmente tocar. Na faculdade, a gente fazia música de câmara, mas queria uma coisa mais… música popular. Então a primeira ideia do Premê era fazer uma música que não precisasse ser amplificada, que não precisasse de muitos recursos, que não fosse complicado, que você pegasse as coisas e saísse tocando. Então a gente fez uma formação de regional de choro porque era uma coisa que ninguém nunca tinha tocado, todo mundo ali vinha do Rock ‘n Roll, do clássico, do jazz, e a gente queria essa coisa de mobilidade, de sair com os instrumentos. E também tinha essa coisa do choro, da técnica, do virtuosismo, uma linguagem diferente dentro da música. Montamos um repertório e começamos a tocar na rua mesmo. A gente ia na faculdade e saía tocando. A gente queria tocar. Ia nas festas da USP, o negócio foi pegando e aí, de repente, em 1978 ou 1979, a gente estava quase se profissionalizando. Nessa época, já tínhamos um repertório nosso, o Wandi entrou, trouxe um monte de coisa com ele e a gente foi crescendo. Participamos do Festival da Cultura, uma janela legal pra gente, um espaço em que a gente apareceu pra mídia e fomos crescendo. Lançamos o primeiro disco, independente, e foi crescendo esse movimento que o pessoal chamou de Vanguarda Paulistana, que nem existia.

MAC+ O Premê, apesar de tocar música popular, estava no círculo universitário…

MM Então, por exemplo, o pessoal do Titãs também tocava naquela época, fizeram show no Lira Paulistana junto com a gente. O Ultraje a Rigor também é da época. Eu e o Roger estudamos juntos, temos um ano e meio de diferença. Só que esse pessoal tinha um apelo mais popular e tinha uma coisa também que ajudava muito que era tocar Rock. O Premê tocava um pouco disso, um pouco daquilo. Isso ajudava por um lado e atrapalhava por outro, por que a gente não se definia. No caso do Ultraje e dos Titãs, eles eram focados. Eu acho que todo esse pessoal da Vanguarda Paulistana influenciou muito sem querer, sem ser um movimento. O que rolou lá acabou abrindo portas para muita gente.

MAC+ Você acha que o humor e música são coisas que andam bem juntas?

MM “Does humor belong in music?”. O Zappa acha que sim! Se você tem um texto só e fica só nisso, você corre o risco de a piada se esgotar. Na primeira lida você ri muito e depois acabou. No caso do Premê, existia uma preocupação muito grande com a linguagem musical, acima de tudo. A gente queria fazer uma música que o pessoal gostasse, balanceada, bem executada, composta, arranjada, uma preocupação que sempre tivemos. E a gente sempre brincava dentro da linguagem musical, e aí a gente se divertia, podia ser até uma piada interna, mas era uma coisa que ficava legal no final. Tinha uma música, chamada “Sempre”, que era do segundo LP que flertava com a música minimalista e a gente brincava com essa linguagem, a gente fazia “Mascando Clichê”, que era uma música que não falava nada, era meio funk e a gente cantava tudo enrrolado…

MAC+ Embromation.

MM Embromation total! Mas sempre levando a sério, tentando fazer da maneira mais séria possível. Você pode mexer com humor, com uma coisa legal, como muita gente faz. Por exemplo, Alvarenga e Ranchinho, que eram sempre muito engraçados, e você tem prazer ao cantar isso.

MAC+ O próprio samba de breque, tem sempre uma historinha, não é? Que tem conotação de humor.

MM E são lindos! Tem uns que você ouve e são muito lugar comum. Porque tem gente que faz samba de breque em cima do samba de breque e fica aquele clichê horrível. Mas quando você faz alguma coisa pensando em fazer música mesmo, pensando em fazer algo sério mesmo, você faz uma música pra cima, alegre, solta, legal de cantar.

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MAC+ Por que Premeditando o Breque? Você deve ter respondido isso milhões de vezes…

MM Eu nem lembro. Foi um brainstorm que a gente fez e colocou “Premeditando” porque tem um negócio do choro muito no gerúndio – “Cochichando”, “Vou Vivendo” – e daí a gente colocou no gerúndio. E o Breque porque era samba de breque. Acho que foi isso.

MAC+ E por que depois só Premê?

MM Porque era mais prático, mais pop, né? (risos) A gente começou a chamar de Premê, Premê, não dava para falar “vamos ensaiar com o Premeditando o Breque”. Não sei quem começou a chamar de Premê, mas ficou assim.

MAC+ E o Música Ligeira. Era algo bem diferente do Premê…

MM O Premê era uma coisa autoral, a gente fazia uns arranjos de outras músicas, mas era mais composição nossa. E o Música Ligeira nasceu sem querer. O pessoal do Olhar Eletrônico, a produtora do Fernando Meirelles, criou um programa na TV Gazeta chamado TV Mix e me chamaram pra fazer a parte de música. Eles disseram: “se vira, tem um quadro para você fazer o que quiser com música”. Eu disse que queria ter um convidado diferente em cada programa e eles toparam. O primeiro cara que chamei foi o Rodrigo Rodrigues, amigo meu, que participou de discos do Premê tocando gaita, cantando, tocando saxofone, grande músico. Aí o Fernando veio e disse “é isso, não quero mais ninguém, só vocês dois”. E a gente seguiu fazendo esse quadro na TV Mix. O Rodrigo deu o nome de Música Ligeira, que é o nome dado a música popular, mais leve. A ideia nossa era pegar uma música que a gente gostasse e dar uma roupagem nova. E só usar instrumento acústico. E, na época, quem fazia sucesso era Os Mulheres Negras (www.myspace.com/osmulheresnegras), o André (Abujamra) e o Maurício (Pereira), as músicas eram deles e só faziam com música eletrônica.

MAC+ E vocês eram o oposto d´Os Mulheres Negras.

MM É, só música dos outros e acústico! E ficamos assim com essa formação de dupla por um tempo e depois o Fabinho entrou. Fizemos dois CDs, um deles de show. Logo depois, o Rodrigo faleceu e acabou. Tocávamos para público pequeno, mas a gente curtia. Viajamos para fora do Brasil: Inglaterra, Alemanha, França, Áustria, por aí. E era divertido porque a gente tinha de tudo no repertório. Entrava Beatles, Paul Simon, Rosana, Jackson do Pandeiro, Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano, a gente fazia o tema do filme Aeroporto, Batman, tudo.

MAC+ Hoje você faz trilhas. O que é mais complicado, montar uma trilha ou compor uma música popular?

MM Às vezes a trilha, às vezes a música popular, depende. Às vezes você faz uma canção e se dá super bem. Depende da trilha que você faz. A trilha tem uma motivação, você tem um vídeo, para acompanhar. A inspiração tem que vir dali. A canção não, ela vem da rua, você é solto. A trilha é música funcional.

MAC+ Qual foi seu primeiro Macintosh?

MM Meu primeiro computador foi um 386, depois foi um 486 e daí fui pro Mac. Eu tinha um estúdio e sempre gostei muito de botões, sempre gostei da parte de estúdio, de gravação. Eu e o Osvaldo Luís Fagnani (que tocou no Premê também) montamos um estúdio em 1987, totalmente analógico, uma máquina de 16 canais de 1 polegada, uma mesa legal. Fiquei lá até 1993, na época em que apareceram os primeiros ADATs (Alesis Digital Audio Tape). Comprei um ADAT, gravava só 8 canais e o computador e comecei a trabalhar com ele. Na época eu usava o programa Gatewalk, que foi um dos primeiros a gravar áudio no PC, mas ele mais dava pau, era uma encrenca gravar áudio naquilo. Quando fui para o Mac, comprei um 7200 e cheguei a fazer um disco do Ivan Lins. Depois troquei pra um 8100 e depois, comprei um 9600. Ele era era maravilhoso, gravei meu CD nele. Ele aguentava um tranco bravo.

MAC+ Como era trabalhar com o Mac?

MM Os Macs estavam muito na frente na parte de áudio e MIDI. Comprei o Logic e trabalhei bastante com ele, principalmente para sequenciar. Depois, com o 9600, comprei o Pro Tools e dei uma bela atualizada. Aí os caras me deram o golpe: saiu o G5 e não dava para usar as placas do Pro Tools que eu tinha, e teria que comprar tudo de novo e era muita grana. Abandonei o Pro Tools e migrei tudo pro Logic. Foi a época em que o Logic tinha sido comprado pela Apple. Mantive o Pro Tools, mas o de pobre, mais simples e migrei de vez para o Logic. Tenho um MacBook preto e rodo o Logic lá também e quase tudo o que faço lá eu faço no Mac Pro do estúdio.

MAC+ Hoje muita gente tem acesso a computador e programas para fazer música. Você acha que isso é uma democratização ou acaba gerando muito ruído ao invés de música?

MM A tecnologia tem esses dois lados. Por exemplo, a fotografia. Toquei no Salão do Automóvel e fiquei assustado em ver as pessoas tirando foto de tudo! Não há tempo para ver todas aquelas fotos. As pessoas ficam em um estado catatônico, deixando de curtir o momento e só tirando fotos. As pessoas viram uma mídia ambulante. Acho que você não pode perder o link com o prazer da coisa. “Quero gravar as músicas que eu compus para minha mulher”. Ótimo. Se o cara faz coisas maravilhosas, é um talento, tudo bem. Ele pode ser descoberto, ou não. Mas vem muita porcaria junto, é como uma onda e traz muita coisa. Sempre existiu dentro da música, do cinema, da literatura, do teatro, da dança, artes plásticas, o cara injustiçado, que é muito talentoso, tem o dom, tem tudo, mas que não tem sorte, que não estava no lugar certo, na hora certa. Com a tecnologia, pode ser mais fácil isso acontecer.

MAC+ “São Paulo, São Paulo” foi a música que jogou o Premê no topo das paradas. De onde veio a ideia?

MM O Osvaldo quis fazer uma música pensando em “New York, New York”, mas com a cidade de São Paulo. Ele veio com o começo e cada um foi somando. A ideia básica foi dele. Mudei algumas coisas na harmonia, nos versos, nem lembro o que cada um colocou. E tinha também a ideia dos bairros, de fazer aquela sequência. Quando a gente chamou o Nelson Soares, que fez o arranjo, ele disse pra mudar o andamento, fazer mais rápido. Essa mudança de andamento, mais apressada no meio, foi maravilhosa.Um arranjo primoroso!

MAC+ Como foi a gravação?

MM A gente não participou tocando, só cantamos. O Nelson montou uma uma big band e o único da turma que tocou foi o Azael, na bateria. O Nelson tocou piano e tinha também um baixo acústico, sem guitarra. Era apenas uma base piano-baixo-bateria. Gravamos primeiro a base, depois uma sessão de saxofone, todas as palhetas. Depois os trompetes e trombones. Era para ter cordas, mas não tínhamos grana e o Nelson resolveu isso maravilhosamente bem, você não sente falta das cordas.

>> Já no primeiro disco, o Premeditando o Breque já mostrou a que veio: bom humor e boa música popular brasileira, bem ligeira

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MAC+ E ela estourou e…?

MM Foi louco, porque a gente não estava pensando nela como carro chefe, mas em “Mascando Clichê”. Pegamos umas três músicas, fizemos uma fita e fomos nas rádios. A Bia (minha ex-esposa, empresária da banda na época) levou na Jovem Pan e o Tutinha ouviu e falou “essa música é demais” e sairam tocando.

MAC+ E até hoje vocês tocam “São Paulo, São Paulo”?

MM O Wandi brinca que tem artista que tem muitas músicas, o bis Lulu Santos demora horas porque ele faz todos os sucessos, e a gente não tem esse problema, é só “São Paulo, São Paulo“ (risos).

MAC+ Como é tocar ao vivo essa música, já que vocês só cantaram no original?”

MM Hoje a gente toca, mas fazemos uma adaptação. Nos anos 1980, usávamos um playback e dançávamos no palco. Tinha uma coreografia com capacete de operário padrão e um cacetete. O Osvaldo cantava e dançava, era engraçado.

MAC+ Veja a ironia: no grande sucesso de vocês, o Premê não toca, ao contrário do que queriam no começo da carreira!

MM É verdade. E para piorar, hoje estamos todos velhos e ninguém dança!

2 comentários

  1. Ari Silveira dos Santos Filho comentou 13:26 às 17 de novembro de 2009

    Para quem não sabe, o Mário Manga, autor de clássicos como “4h15″ e “A saga de Abud Salim”, é pai da Mariana Aydar, mas parece q o som dela é mais conservador que o dele.

  2. Jason comentou 14:13 às 30 de novembro de 2009

    ???????

    Ihh ?

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