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Conheça a história do amado (e odiado) iTunes

:: por Redação macmais :: 20/12/2012 :: Deixe um comentário

CD para quê?, por Mario Amaya (@marioamaya).

Matéria publicada originalmente na macmais 78.

A história do surgimento do iTunes é indissociavelmente ligada às de três outros aplicativos: Winamp, Audion e SoundJam. Em que pese o primeiro ser um software do mundo PC e o iTunes ter sido desenvolvido com base no SoundJam e não no Audion, estes dois programas juntos foram fundamentais para determinar a direção da história toda. 

Tudo começou com o Winamp, um descompromissado tocador de MP3 lançado para o Windows em 1997. O formato de áudio MP3 ainda era novidade, tendo vindo à luz em 1994. O Winamp, com sua simplicidade e diminuta interface lembrando um tocador de CD de carro, foi em larga parte responsável pela adoção desse formato de áudio para “ripar” e trocar músicas, mesmo não sendo um formato aberto – os desenvolveres de tocadores de MP3 precisaram comprar o algoritmo de seu inventor, o Instituto de Ciências Aplicadas Fraunhofer-Gesellschaft, da Alemanha.

O Winamp dominou de imediato a cena na plataforma Windows, graças à sua singeleza de operação e ao suporte complementar oferecido pelos tocadores de música digital portáteis que surgiram a partir de 1998. Em 1999 veio o Napster, que consolidou de vez o modelo de compartilhamento de música em formato MP3 pela Internet, obtendo rapidamente milhões de usuários, mesmo sendo esse uso oficialmente ilegal.

Então surgiram o SoundJam MP e o Audion – ambos praticamente ao mesmo tempo em 1999 – a fim de suprir a falta de um tocador de áudio sofisticado para a plataforma Mac da época, que vinha de fábrica somente com um tocador de CD feioso e básico, além do QuickTime Player para formatos de mídia que não o CD.

A história do SoundJam MP e do Audion foi temperada por uma rivalidade incandescente que se desenvolveu entre os dois sharewares. O Audion foi criado por Cabel Sasser e Steve Frank, dois amigos de Portland, Oregon, que vinham embalados pelo sucesso de outro aplicativo, um cliente de FTP até hoje vendido chamado Transmit. Por sua vez, os desenvolvedores originais do SoundJam, Jeff Robbin e Bill Kincaid, já tinham trabalhado na Apple, dentro do projeto Copland.

Os dois programas evoluíram muito além da proposta inicial, adicionando controles sofisticados, visualizadores e interfaces personalizáveis com “skins”. Por fim, no começo de 2000 (bem no auge da onda do Napster) a Apple entrou em contato com as duas duplas de programadores para conversar sobre “planos futuros”. Naquele momento, a turma do Audion estava envolvida numa negociação delicada para a aquisição da sua empresa, a Panic, pelo portal America Online – que, para além de ser uma potência de primeira grandeza dentre os provedores da internet, já tinha adquirido a Nullsoft, criadora do Winamp.

A Panic vacilou demais na negociação com a AOL e Steve Jobs acabou falando somente com os criadores do SoundJam. Resultado: o programa foi adquirido pela Apple, juntamente com seus desenvolvedores, que passaram a fazer parte da equipe de aplicativos para Mac. Eles foram encarregados de reinventar o programa com o nome iTunes e várias alterações: controles simplificados, suporte a gravação de CDs e uma interface principal baseada na lista de metadados (ID3 Tags), adequada para administrar facilmente coleções de música muito grandes, com milhares de faixas.

Em janeiro de 2001, Steve Jobs lançou o produto com fanfarra e pompa na abertura da Macworld. Ninguém entendeu de imediato o que a Apple pretendia com ele: pudera, àquela altura somente o próprio Steve Jobs devia saber que a Apple fabricaria um tocador de música intimamente integrado ao software, menos ainda que ele terminaria alavancando o negócio ao criar a principal loja virtual de música e vídeo do planeta.

Para os rapazes do Audion, até ali vencedores com seu produto, o futuro passara repentinamente a ser negro. Em sua reunião com Steve Jobs – que tinha sido marcada antes da Macworld com seu lançamento-bomba –, Jobs disse, sem meias palavras: “Vocês não têm a menor chance de competir conosco. Mas como desenvolvedores mandam muito bem. Então, que tal trabalharem para a Apple?” Isso significaria, incidentalmente, que seu chefe dentro da empresa seria o ex-rival, criador do SoundJam MP e agora do iTunes. Movidos pelo orgulho e pelo desejo de se manterem independentes, Cabel e Steve declinaram polidamente da oferta. Em 2004, o Audion passou a ser freeware e seu desenvolvimento cessou para sempre (mas a Panic sobreviveu e hoje faz programas para iOS e OS X, como o Coda e o ainda excelente Transmit).

Nem mesmo os desenvolvedores do SoundJam MP que foram absorvidos pela Apple tinham ideia de que sua criação seria a base para um negócio multibilionário para a Apple. O tocador de música digital de bolso baseado em memória flash já tinha sido inventado em 1979 pelo britânico Kane Kramer, mas a tecnologia necessária ainda não estava madura; os primeiros aparelhos do tipo para tocar MP3 só apareceram em 1998. O iPod foi desenvolvido pelo então chefe de engenharia de hardware Jon Rubinstein, a pedido de Steve Jobs, e veio a público em outubro de 2001; a versão para Windows saiu no ano seguinte, mostrando que a ideia da Apple não era só jogar para a própria torcida e sim conquistar o mundo. Ao longo da década, a Apple pisotearia a concorrência já estabelecida, venderia mais de 300 milhões de iPods e pavimentaria o terreno para a criação de um sucesso ainda mais gigantesco, o iPhone, responsável por finalmente colocá-la no topo das empresas de tecnologia.

Por sua vez, a iTunes Store, lançada em abril de 2003, tornou-se a líder do mercado de imediato, vendendo arquivos AAC com proteção contra cópia (abolida gradualmente entre 2007 e 2009) e acrescentando outros produtos: podcasts, audiolivros, programas de TV, filmes, e-books e softwares para iOS. E, por fim, conseguiu vencer a Apple dos Beatles, depois de anos de batalhas judiciais. Mas isso já é uma outra história.

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