Conheça o Rhapsody, que deu origem ao Mac OS X
Parece, mas não é À esquerda, uma versão preliminar do NeXTSTEP (originalmente em preto e branco). Lembrou o Windows 95? Pois bem, o NeXTSTEP veio sete anos antes. À direita, Mac OS X Server 10.0, que até lembra o OS 8, mas note o “Finder” com ícones grandes e colunas, já prenunciando o OS X
Por Mario Amaya (@marioamaya)*
Se você acompanhou as recentes colunas (ou se é um usuário de Mac das antigas), sabe que há 15 anos a Apple enfrentou uma crise dupla – de administração e de foco mercadológico – que quase a destruiu. A análise da história em retrospecto aponta que essa perda de rumo ocorreu em boa medida pela ausência do visionário fundador Steve Jobs, expulso da empresa em 1985, durante a primeira crise que surgiu após o lançamento do Macintosh original. Passada uma década, a Apple se afundava em prejuízos, não conseguia emplacar suas invenções no mercado e perdia a noção do ridículo fazendo Macs ruins de propósito para competir com PCs baratos, ao mesmo tempo não atendendo à demanda por equipamentos topo de linha. Os executivos buscavam compradores para a companhia sem nunca conseguirem fechar negócio.
Distante desse pandemônio, Jobs construía um novo futuro. Uma das iniciativas de Jobs no exílio foi a aquisição da Pixar, criada por George Lucas, para transformá-la de laboratório experimental de pesquisas tecnológicas em um estúdio comercial de animação digital. A aposta começou a dar frutos em 1995, com o sucesso do revolucionário Toy Story, primeiro longa animado em CGI. Sua outra aposta foi a NeXT Computer. Logo após sair da Apple, Jobs fundou a empresa com a intenção expressa de – como o próprio nome sugere – criar o paradigma para o computador pessoal da década seguinte. Jobs provavelmente já esperava que a Apple perdesse o rumo do Macintosh e que a indústria de PCs não superasse suas próprias limitações.
Sabendo que o projeto NeXT seria de longo prazo, Jobs buscou de início explorar o nicho educacional, conquistando muitos fãs, mas pouquíssimos clientes. Em tese, fez tudo certo: adotou como base o robusto sistema operacional Unix BSD, o avançado microkernel Mach e uma arquitetura de código modular orientada a objeto. Traduzindo para o leigo, foi uma garantia de qualidade industrial para o fundamento de seus produtos, combinada a uma flexibilidade nunca vista para o desenvolvimento de aplicações. E como não podia deixar de ser em se tratando de Jobs, ele fez isso tudo rodar num computador lindo: um cubo de liga de magnésio anodizado preto, que utilizava o mesmo tipo de processador dos Macs da época e um controverso drive magneto-óptico da Canon no lugar de disquetes ou disco rígido.
Era evidente que o sistema NeXT vivia no mínimo meia década no futuro, com sua elegância de operação, modernidade técnica e a belíssima GUI (interface gráfica), que era um show à parte: contava com janelas e menus flutuantes, um Dock para acessar os programas, textos em fontes PostScript com aparência realista e efeitos de relevo tridimensionais que faziam os itens da interface se parecerem mais com “objetos” propriamente e menos com abstrações geométricas (ainda hoje esse visual sobrevive no pacote de desenvolvimento GNUstep.) Foi numa máquina dessas que Tim Berners-Lee programou e serviu, em 1991, a primeira página da Web.
Passaram-se os anos e a NeXT percebeu que teria de desistir de vender computadores (menos de 50 mil foram produzidos, entre o modelo original cúbico e seu derivado baixinho, entre 1988 e 1993). A empresa resolveu então ficar só no software. O sistema operacional NeXTSTEP deu origem ao OPENSTEP, um poderoso ambiente de desenvolvimento multiplataforma, isto é, capaz de rodar integrado a outros sistemas, tanto de hardware como de software. Junto com ele foi desenvolvido o WebObjects, um pioneiro conjunto de ferramentas para desenvolver páginas Web dinâmicas – um alicerce daquilo que hoje chamamos de e-commerce.
Tais produtos foram aclamados por crítica e público, mas não atingiram uma base de usuários muito ampla, devido ao seu altíssimo preço.
A Revolução Jobsiana
Quando a maré novamente parecia baixa para a NeXT, veio a notícia de que o projeto Copland da Apple naufragara de vez e a empresa buscava um substituto de fora. Chegou a haver um flerte com a Be Inc., a pequena empresa do ex-chefe de desenvolvimento da Apple, Jean-Louis Gassée, para criar um novo computador do zero. O seu produto abrangia uma CPU chamada BeBox e o respectivo sistema operacional, o BeOS. Era intrigante e moderno, com um talento incomum para lidar com multimídia. Mas em 1996 o BeOS não estava suficientemente pronto. Não era ainda um produto, mas uma promessa. A própria Apple já tinha prometido demais e não cumprido.
Nesse momento estratégico, apareceu Steve Jobs com a salvação da pátria: por que não adaptar o OPENSTEP para rodar em Macs e torná-lo o Mac OS de fato? Parecia uma ideia tão louca quanto adequada. Em 20 de dezembro de 1996, a Apple comprou a NeXT por US$ 429 milhões. Muito mais do que a oferta, recusada, de US$ 100 milhões pela Be. A parte de Steve Jobs no negócio não foi paga com dinheiro, mas com uma gorda parcela de ações da Apple.
O comentário geral na época era de que Jobs tinha conseguido enrolar a empresa que ele mesmo fundara; além disso, ninguém duvidava de que, caso o golpe funcionasse, ele poria em execução ambições de poder muito maiores. Pois bem: de imediato Jobs cortou divisões de produtos inteiras da Apple, inclusive as lucrativas, deixando somente a de computadores. Trocou inúmeros executivos-chave da Apple por outros da NeXT. Mandou embora muita gente que não se encaixaria em sua nova ordem. Por fim, em 4 de julho de 1997 Jobs promoveu-se de consultor a CEO interino da Apple, assumindo o cargo efetivamente em 2000. Nessa mesma altura, a conversão do OPENSTEP em Mac OS X finalmente era uma realidade, embora ainda em estágio experimental.
Como se sabia que a transição não seria rápida, tudo o que deu para aproveitar do Copland foi incluído no Mac OS 8, que ganhou tempo enquanto os engenheiros da NeXT procediam com a grande fusão dos sistemas. No final, ficou a coleção de ferramentas do OPENSTEP, chamada Yellow Box (posteriormente Cocoa), mais um módulo de compatibilidade com programas do Mac OS clássico, a Blue Box (Classic Environment). Programas Unix X11 e Java também tinham suporte. Tecnologias exclusivas importantes do Mac, como o QuickTime, foram incorporadas.
O resultado chegou ao mercado em 1999, na forma do primeiro Mac OS X Server, codinome Rhapsody. Tinha uma aparência híbrida singular: os menus eram do Mac, os ícones eram do OPENSTEP e as janelas, uma mistura dos dois. O Rhapsody não era um produto para o consumidor, mas sim uma preparação para os desenvolvedores. Em certa medida, ele compriu uma função transicional similar à do Windows 2000 no mundo PC. Em março de 2001 foi finalmente lançado o Mac OS X 10.0, codinome Cheetah, marcando o início de uma década de sucesso ilimitado para a Apple.
*Matéria originalmente publicada na MAC+ 63.


