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Conheça Sérgio Rezende, que veio do mundo analógico para o digital com a ajuda do Mac

:: por Redação macmais :: 16/12/2010 :: Deixe um comentário

Baterista de coração “Como se diz por aí, baiano não nasce, estreia”, afirma Sérginho Rezende, sócio da Comando S

Por Sérgio Miranda

Fotos Hans Georg*

O sonho do menino baiano Sérgio Rezende, ou Serginho, como todos o conhecem, era ser músico. Para isso, começou a tocar com oito anos de idade, em Amargosa, no interior da Bahia. Mas as coisas foram tomando um rumo inusitado. Em 1995, chegou a São Paulo acompanhando uma banda e foi ficando. Engenheiro Civil por formação, músico de coração, acabou trabalhando em uma produtora de áudio, a Voicez. Tomou gosto pela propaganda e hoje é um dos diretores da Comando S, sua própria produtora. “Sim, o nome tem a ver com o Mac”, explica mostrando o logo da empresa, que é o símbolo associado à tecla [Command] no teclado Apple.

“Comecei como produtor musical bem naquela fase de transição do analógico para o digital, em meados dos anos 1990”, lembra Serginho Rezende. Depois de alguns anos na Voicez, ele fundou a própria produtora, agora com seis anos de idade. “Já fiz tudo o que se pode imaginar. Muitas trilhas para diversos clientes, como operadoras de celular, Pepsi, entre outras”, conta Rezende, que quase sempre contou com a ajuda de um Mac. “Tive um PC com Windows no começo, mas quando entrei no mundo maravilhoso da propaganda, passei a usar o Mac”, diz.

Macs e iPads, unidos Serginho Rezende e seu iPad: um brinquedo bacana, mas ainda sem utilidade prática

MAC+ Você conheceu o mundo analógico, do LP, antes do CD. Os músicos de hoje já nascem digitais. Como foi essa mudança?

Serginho Rezende O que percebo, muitas vezes, é uma preguiça nos produtores que estão chegando agora. Os caras não gravam mais um take inteiro, só um pedaço, editam e vão mandando para a frente. Acho que, com isso, um pouco da profundidade musical se perde. Eu defendo a tese de que na época do analógico você era obrigado a tocar a música inteira, a estar maduro o suficiente para não errar o take. No digital é diferente: pega daqui, edita, apaga, corta, afina! Isso tudo faz com que se vá menos preparado para a música.

MAC+ O processo musical mudou muito?

SR Demais! O maior perigo para quem entra hoje direto no digital é a infinidade de canais. O que acontece? Você pode gravar 120 instrumentos, cinco guitarras ao mesmo tempo. Eu já vivi isso. Você faz um take que não está muito bacana e coloca um segundo para apoiar. Aí, dá para adicionar um terceiro e um quarto, fazendo contraponto, e sua música vai ficando cheia de guitarras e teclados e baterias, um escondendo a deficiência de execução do outro. Antigamente, quando havia poucos canais, ou se fazia “a guitarra”, ou não rolava a música.

MAC+ Desse jeito, para tocar uma música ao vivo, é preciso contratar uma orquestra…

SR O que temos hoje é o seguinte: uma banda tem um guitarrista. Como resultado, você pode ter três ou mais canais mas, para quem ouve, é apenas um guitarrista. Principalmente nos anos 1990, parecia que uma banda tinha dez guitarristas, cada um fazendo uma coisa diferente.

MAC+ Compor música também mudou?

SR Sim. Hoje o músico já pensa em fragmentos, em loops. O raciocínio é totalmente diferente. Na hora de montar a música, ele já não é mais linear – vai para a frente e para trás até chegar ao resultado final. Já se concebem as faixas de maneira digital, com pedaços que podem ser manipulados.

MAC+ É possível ser um produtor musical sem ter sido músico, só estudando?

SR Conheço um produtor, o Nelson Motta, que acho muito bacana, mas ele é mais como um diretor artístico. Ele assina como produtor musical em alguns discos. E acredito que ele acrescenta muito ao trabalho final, pois pega a informação musical que o artista traz. O produtor não necessariamente precisa pôr a mão na massa, mas o mundo digital está obrigando a isso. Existem alguns que acabam tocando todos os instrumentos. Só não se pode fugir de uma coisa: a prática. Arte, como tudo na vida, é quantidade. A gente foge se fazer as coisas. Às vezes, você passa anos fazendo apenas uma música, como se ela fosse a melhor do mundo! É preciso fazer, muito. Um disco atrás do outro. É produção.

MAC+ E qual a função do produtor musical?

SR Ele é meio que um terapeuta, psicólogo. Você se autoenxergar é muito complicado. O grande papel do produtor é ver o que tem de bacana em você ou onde você quer chegar, decodificá-lo, levá-lo para o mercado e dizer “olha o que este cara tem de bom”. E muitas vezes, é dar aquela certeza para o músico, mostrando o que é legal ou não. Acho a autoprodução muito complicada. É cantar e não saber se o vocal está bom, se o andamento está certo. O produtor é o cara que vai dar suporte. E também cuidará da parte técnica, de saber captar aquele som. É dizer “toca assim, toca assado, projeta mais a voz”. Essas coisas. Enxergar de fora. E estar aberto a novas possibilidades.

MAC+ Qual foi seu primeiro Mac?

SR Meu primeiro computador foi, na verdade, um PC. Mas depois, comprei um PowerMac G3 azul e branco. Quando fui trabalhar na Voicez, eram apenas Macs, os 9600, na época.

MAC+ São 11 anos usando Mac. O que você mais gostou nesse tempo todo?

SR Tudo, desde o início. Depois que usei o Mac, nunca mais consegui usar um PC com Windows. Quando vi um Pro Tools rodando no 9600, 10 mil vezes mais estável que em um PC, abri mão definitivamente. Aqui na produtora não tem nenhum PC.

MAC+ Nem mesmo o administrativo?

SR Ninguém. É tudo Mac. Temos um sistema integrado em FileMaker para o atendimento. São mais de 20 Macs. iPhone, quase todo mundo tem. E tem iPads também.

MAC+ Sempre foi assim, tudo Mac?

SR No início, eu tinha um PC no financeiro, justamente por causa do sistema do banco. Emitir boleto, pagar notas e outras coisas eram feitas só no Windows. Foram três anos disso, com travamentos me enchendo o saco. Daí, eu cansei. Fizemos um sistema integrado para controle interno na produtora, só em Mac.

MAC+ Você tem um iPad? O que mudou para você com o iPad?

SR Olha, eu comprei um por consumismo [risos]. Ele, para mim, não servia para nada. Perguntaram-me porque eu ia comprar um, e eu dizia que era porque eu queria ter, embora achasse que não serviria para nada. Mas ele é um superbrinquedinho divertido. Como algo útil, não está me trazendo retorno algum. Eu gosto é de brincar com ele. Quando eu colocar um chip, talvez ele tenha mais utilidade. Para mim, se preciso acessar internet em qualquer lugar, o iPhone segura a onda. E em uma reunião de produção, é muito mais fácil levar o MacBook. Se preciso de uma música, alguém me manda e eu aperto o Play, bem mais simples de fazer no Mac. No iPad, o processo não é tão fácil. Mas eu adoro o iPad, acho-o o máximo. Para ler livros, é ótimo! Estou muito confiante no futuro dele.

MAC+ Ele vai substituir o laptop?

SR Acho que mais adiante, sim. Para que vamos levar um notebook para todo o lugar? Todo músico é igual: pega um teclado USB pequeno, um microfone, um fone de ouvido e coloca tudo na mochila para passar o final de semana na praia. E montar tudo isso dá uma preguiça danada! [risos] Resultado: não usa. E você começa a pensar “não vou pegar tudo isso, vou descansar”. O notebook é igual. Mas o iPad pode ser diferente, acho que ele ainda pode ser útil, mas não agora [risos].

MAC+ O que você acha que alguém como John Lennon faria se tivesse a tecnologia de hoje?

SR Penso que se o Lennon, ou qualquer outro cara desses, tivesse um Mac, não teria composto a metade do que fez, porque ficaria o resto do tempo atualizando software! [risos] Eu já me peguei numa fase da vida em que tinha uma estação Pro Tools em casa. Que maravilha, tudo lá, hora de produzir! Aí, eu abria o computador e tinha uma versão nova do plug-in de guitarra, e eu baixava. Então, dava conflito com o compressor sei lá qual. E eu tinha de atualizar esse também. O tempo passava e eu ficava lá, atualizando o sistema em vez de fazer música. Logo, decidi ficar um ano sem atualizar nada. O computador estava funcionando? Ficaria daquele jeito. E foi quando eu mais produzi!

MAC+ Qual foi a primeira música que você ouviu e que te deu um estalo?

SR Não sei. Minha relação com a música é diferente. Eu comecei a tocar com oito anos de idade. Sou filho caçula e nasci no interior da Bahia, em Amargosa. Mas todos os meus irmãos tocavam e meu pai era professor de música. Comecei tocando na fanfarra da cidade. E na Bahia se consome muito a própria arte, ainda mais no interior, naquela época. O primeiro CD que escutei foi um ao vivo do Lobão. E achei a qualidade dele o máximo. Por ter começado tão cedo, minha relação com música foi sempre mais de executar do que de ouvir. Houve uma época em que eu visualizava a bateria em uma música, os movimentos do cara tocando. É muito louco.

MAC+ Isso não acaba viciando o ouvir música. Em vez de ser algo relaxante, parece que é sempre algo profissional?

SR É uma bosta! [risos] Fica parecendo jogador de futebol que não quer passar a bola para ninguém, tudo muito chato! É muito ruim. Sou uma pessoa que passou a adolescência sem admirar Beatles porque eu só ouvia Jazz Fusion. Eu curtia esse som. Ficar ouvindo aquela bateria simples dos anos 1960 era muito sacal. Eu viajava naqueles solos de bateria muito elaborados. Todo mundo tem uma fase assim, cada vez mais complexa, até que a gente percebe o quão belo é o simples e vai tirando as notas, até se encantar com o básico.

*Matéria publicada originalmente na MAC+ 55.

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