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Esportes, arte e Macintosh

:: por Redação macmais :: 23/10/2009 :: 1 comentário

41-macartista-1“Era uma quinta-feira, muito frio, helicópteros sobrevoavam dando rasantes, era uma passeata, época da ditadura militar. No dia anterior teve Botafogo versus São Paulo no Morumbi, meu pai estava lá. Quando ele chegou em casa, não tinha mais ninguém. Meu tio, minha avó, minha mãe todo mundo no hospital. E eu nasci um dia depois”. É assim que Gustavo Duarte, ilustrador conhecido de quem acompanha esportes, principalmente futebol, se lembra do dia de seu nascimento. É claro que muita coisa parece ter saído da cabeça desse bauruense que ganha a vida mostrando o lado engraçado do nosso esporte.

Duarte tem aquela profissão que muita gente gostaria de ter: tirar sarro, no dia seguinte, daquela derrota do time adversário e ganhar por isso. Mas nem tudo são flores. “Quando tem Copa do Mundo, tudo é fácil. Mas em janeiro, com os times em férias, não tem assunto. É um inferno, detesto. E haja Papai Noel”, diz.

Usuário de Mac das antigas (“tive um Performa que queimou com um raio”), Gustavo não tem o último modelo em casa. “Sou do tempo da Apple do PowerPC”, diz com orgulho. Para ele, o computador é uma ferramenta, mas o papel ainda é fundamental. “Consigo fazer as coisas mais rápido, como colorir, mas desenhar, só no papel”, afirma, categórico.

Fruto das histórias em quadrinhos que leu na infância, Gustavo Duarte acaba de lançar sua primeira revista, Có!, em preto-e-branco e com produção totalmente independente. Para conseguir comprar, é preciso entrar em contato com o autor no site ou procurar em poucas livrarias especializadas. “Fui para ComicCon em San Diego e lá eu vendi mais do que eu esperava. Foram 50 na feira e mais 40 pra uma loja de quadrinhos.O primeiro autógrafo de todas foi para o Jeff Smith, de Bone, que eu adoro”, conta Duarte.

MAC+ Como você descobriu que queria desenhar?

Gustavo Duarte Eu estava sempre desenhando. Toda criança desenha, e o desenhista é aquele que continua. Qualquer pessoa desenharia em um nível bom se continuar, não é um dom ou uma dádiva de Deus, isso para mim não existe. É óbvio que existe a predisposição: ou o cara gosta, ou não, essa é a diferença. Mas desenho é treino. Não existe a pessoa que nasceu desenhando igual ao Michelangelo. Como eu faço isso diariamente, vou melhorando sempre. Não tem essa de “eu comecei a desenhar com tantos anos”. Profissionalmente, comecei a desenhar com 16, 17 anos, fazendo uns bicos. Considero como profissão quando entrei como cartunista no Diário de Bauru, em 1997, um dia depois de o Guga ser campeão em Rolland Garros. Por causa disso, meu apelido entre os jornalistas, até hoje, é Guga. Eu estava desenhando o Guga, e um grande amigo meu (e que estava me conhecendo naquele dia) perguntou meu nome, e eu disse “Gustavo”. Ele continuou: “não, não é quem você está desenhando, mas quem é você?”. Respondi, “Gustavo”. Eu já tinha entendido, mas continuei na piada.

MAC+ E você sempre trabalhou com charge?

GD Sempre fiz charge, caricatura, ilustração dessa maneira. Já fiz bicos na vida, como logotipos. Sou designer gráfico formado pela Unesp de Bauru. Quando trabalhei no jornal, era estudante, então fiz muito logotipo, programação visual e trabalhei na Abril como designer, mas os primeiros empregos foram desenhando. No entanto, considero o Diário como meu primeiro emprego de verdade.

MAC+ Você não acha que foi coincidência começar desenhando sobre esporte?

GD Não acho, pois sempre gostei de esporte, e desde moleque sinto que tenho uma ligação com a área. Eu já fazia caricaturas de jogador de futebol com 14, 15 anos. Quando enviei meu currículo para o jornal Lance!, achei que aquele era um trabalho que eu poderia fazer. Acredito que conseguiria ser chargista político de qualquer jornal, menos de um muito conservador.

MAC+ Como é contar uma história em apenas um desenho? É muita pressão ou é fácil?

GD Ah, fácil não é, mas nada é fácil na vida. É difícil carregar saco de cimento no porto. Creio que, obviamente, não é a coisa mais simples do mundo, é um trabalho difícil, mas alguém tem que fazer. Vamos focar no meu trabalho, que é o futebol. Durante a Copa do Mundo, aparece um monte de gente fazendo charge de esporte, não é? Aí é fácil. O problema é fazer em janeiro, quando não tem jogo, não tem nada. Acho que uma das coisas mais complicadas do meu trabalho é chegar ao assunto.

MAC+ A pauta é você quem decide?

GD A charge sou eu quem decido. Faço um dia charge, um dia ilustração. Revezo com o Mario Alberto. Na ilustração, você não precisa dizer tudo, porque ao ler o texto, ela faz sentido. É um acompanhamento. Mas a charge não, ela vai sozinha. A charge é minha opinião, meu desenho, minha visão, e eu tenho que passar uma mensagem. A charge é muito mais complicada do que fazer uma ilustração. Ela não tem pauta, eu tento encontrar uma coisa que combine. O Brasil jogou contra a Argentina e, obviamente, tenho de fazer uma charge sobre isso.

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MAC+ E como foi fazer sua primeira história em quadrinhos? Como ela nasceu, em que momento e quanto tempo ela demorou para se tornar realidade?

GD Eu sou fruto dos quadrinhos. Todos os meus ídolos fizeram HQs, fora o Al Hirschfeld. Então você tem o Laerte, o Henfil, o Ziraldo, Paulo Caruso… e tenho uma influência muito grande do quadrinho americano. Li muito Homem-Aranha, Batman, essas coisas. Eu adorava o Todd McFarlane, achava o máximo! Nos encontramos na ComicCon, e ele estava destruindo um moleque que mostrava seu portfolio, razão pela qual nem fui falar com ele. Adorava o Greg Capullo, que desenhava o Spawn. Muito do que aprendi a desenhar foi com gibis, mas sempre achei muito complicado, demanda tempo, não é um negócio rápido. Eu tinha vontade, mas ao mesmo tempo olhava e falava que era impossível. Quem mais me deu pilha para fazer isso foram o Fábio Moon e o Gabriel Bá. Além deles, sempre me diziam que era possível, então comecei a achar que conseguiria. Em dois anos, a coisa foi ficando mais séria e eu falei “pronto, vou fazer”. Na época, eu ainda trabalhava na W/Brasil, no Lance!, fazia freela. No meio do ano passado, decidi sair da W/Brasil para tentar fazer as coisas que achava que tinham de ser feitas. No começo deste ano, peguei a história que eu havia escrito ano passado ou retrasado, lapidei, e o processo entre começar e acabar foram três meses. Só que nesse meio-tempo, mudei de casa, reformei o estúdio e parei alguns dias porque viajei para Bauru, pois meus pais também mudaram de casa. Mas foram mais ou menos três meses de trabalho.

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MAC+ E como foi em San Diego?

GD Foi surreal. O Brasil tem muito a aprender. Hoje eu estou fazendo quadrinhos, mas eu já sou cartunista há séculos. É complicado, algumas pessoas nem sabem que existe a profissão. Lá tem indústria, tem gente comprando, gente vendendo tudo.

MAC+ E é cheio de maluco, não é?

GD Nossa, nunca vi tantos! Eu virava para o Fábio e o Gabriel Bá e dizia: “vocês acham mesmo normal isso aqui?”. Eles respondiam “é nosso décimo terceiro ano, isso já é normal”.

MAC+ E como foi a receptividade da revista lá?

GD Foi legal, o fato de não ter texto ajuda bastante. Acabei ficando em um estande que era do Fábio e do Gabriel. Eu era um dos que mais ficava no estande, pois eles tinham entrevistas, palestras, fotos, essas coisas. E a minha capa chamava bastante atenção, porque era vermelha e branca. As pessoas pegavam e, se quisessem, liam na hora e era legal olhar as pessoas e ver as reações. Vendi mais do que eu esperava.

MAC+ Quando o Mac entrou na sua vida?

GD Imaginei que você fosse fazer essa pergunta e estava pensando esses dias. Nunca pintei um desenho em um PC na vida. Já usei PC, de amigos, no começo eu não tinha computador em casa, mas eu nunca pintei um desenho que não fosse no Mac. Eu me lembrava do meu pai falando da Apple com certo carinho. Porque essa é a diferença, a Apple sempre foi rodeada por muito carinho. Meu pai via as revistinhas da época, com o 128 K e falando sobre a Apple. Só fui ter contato com um quando um amigo meu da faculdade um dia me disse que tinha acabado de comprar um Mac – só a caixa dele já era mais legal do que qualquer computador do mundo. Eu estava no segundo ou terceiro ano da faculdade e precisava comprar um, já estava fazendo falta. Quando decidi adquirir um computador eu disse: “Pai, vou comprar um Apple”. Aí compramos um Performa. Era 1996 ou 1997. Logo depois veio o iMac, um modelo de 333 MHz. Hoje tenho um iMac G5.

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MAC+ Você acha que para trabalhar, precisa ser o iMac de último tipo?

GD Se fosse, eu estava ferrado. Eu trabalhei com o Performa, mas quando comecei, o jornal era em preto-e-branco ainda não precisava de cor, era tudo na mão mesmo. Quando comecei em revista, já estava em São Paulo e usava o meu iMac 333. E todo mundo já tinha computadores mais modernos e eu ainda nele. Resolvi comprar outro porque os programas já não casavam mais e eu troquei por um G5. Uso o sistema nativo dele, o Tiger.

MAC+ Não pretende ir para o Intel.

GD Meus amigos têm Macs Intel, e são ótimos. Mas no meu, instalei os programas lá e nunca reinstalei nada. Acho isso maravilhoso no Mac. Tive meu iMac durante seis anos de trabalho bruto, todo o dia fazendo no mínimo um desenho, isso quando não eram quatro ou cinco. E o iMac lá, dando conta do recado. Ele ainda está em casa, acho que vou colocar na sala. Nunca deu um pau, só o velho problema com o flyback.

MAC+ Você acha que o computador complementa ou é ferramenta?

GD É uma ferramenta, ele facilitou muito as coisas, faço trabalhos mais rapidamente. Se tenho um desenho e preciso pintar, demoraria mais tempo se tivesse de fazê-lo a mão. Se cometo algum erro, preciso reiniciar. E tem que secar, mandar para o cliente. Agora, não, é possível digitalizar, colocar cor, tudo ficou muito veloz. Quando comecei, pensei que o utilizaria somente para cor, mas o computador fez com que eu aprimorasse meu traço. O importante é o traço, a cor é um complemento. Você vê que não tem muita pirotecnia nos meus desenhos.

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MAC+ Muita gente depende do computador, nem usa mais o papel…

GD Eu desenho na mão. Não consigo imaginar não ter o papel. Um amigo acabou de comprar uma Cintiq e me contou como é. Gostaria de ter uma, mas não vou deixar de trabalhar no papel nem a pau. Uso internet e computador como instrumento de trabalho. Só fui ter um celular quando a Apple inventou um. É uma questão de gostar. O Carvall desenha no computador direto com mouse e fica lindo. É um dos maiores ilustradores que conheço. A minha maneira é no papel, mas não tem uma maneira certa. Tem caras das antigas que ficam com preconceito com computador. Vejo trabalhos de uma molecada, por causa do blog, e tem gente que nem sabe escanear direito. Eu penso “Meu Deus, poderia ao menos limpar o desenho”. Há, contudo, outros que desenham maravilhosamente bem. O computador é mais fácil e não é. Ele democratizou, mas continuam existindo as pessoas que continuaram a desenhar e as que não deixaram de desenhar.

MAC+ Alguém já ficou injuriado ou emocionado com alguma charge sua?

GD Já deve ter tido gente que reclamou, mas ninguém me avisou. Torcedores, sim, me mandam email ou elogiando, ou detonando. Porque torcedor é xiita, então ele vê um desenho do Timão sendo detonado e caindo pra segunda divisão e acha que a culpa é minha ! Na minha época de Diário, houve uma ameaça de processo, mas o editor bancou a parada. O único cara com quem eu tenho um pouco de contato é o Rogério Ceni, do São Paulo, que reclamou que o nariz estava meio grande.

MAC+ Qual personagem que você mais gosta de brincar?

GD Quem mais me ajudou a trabalhar até hoje foi o Rubinho. Ele é tão bom que fica ruim. Não tenho nenhuma dúvida de que ele é um ótimo piloto, ninguém trabalha tanto tempo na Ferrari e na Fórmula 1 sem ser bom, mas ele rende uma boa piada.

MAC+ E de jogador de futebol, qual você gostava de fazer?

GD O Tevez. Ele é o mais legal porque parece um personagem. Ele fala engraçado, anda engraçado, e é bom jogador, além de tudo. O Felipão rendeu muita charge boa; o Ronaldo, mas ele está cada vez mais cheio de coisa, cheio de barriga, de cabelo, o dente não é mais o mesmo. O Ricardo Teixeira também é legal.

MAC+ E o Guga, o seu primeiro?

GD O Guga foi o melhor esportista brasileiro que eu vi. Disparado. O Oscar olhando de longe, é o segundo.

MAC+ Você o conheceu pessoalmente?

GD Não, um amigo teve uma reunião com ele e eu enviei alguns desenhos ampliados. Meu amigo disse que ele sorriu e falou: “esse eu conheço, esse eu conheço, esse eu não lembro, que legal”. Foi olhando, vendo pediu para me agradecer o presente. Uma semana depois, recebi um envelope em que havia uma camiseta autografada por ele “Ao Xará um abraço amigo, Guga”. E era uma camisa comemorando os dez anos de Roland Garros! Comemorando dez anos da minha carreira.
Fiquei emocionado!

Dica do Artista - Desenhar é preciso

por Gustavo Duarte

>> Para desenhar não existe segredo. É muito simples. A única coisa que o faz melhorar é a prática. As pessoas que dizem “não sei desenhar nem um boneco de pauzinho, desenho como uma criança de 5 anos”, fazem-no porque, provavelmente, pararam de desenhar com 5 anos.

>> O desenhista é ninguém menos do que aquele que nunca parou de desenhar. Isto é, o segredo para um bom desenho está na prática. Portanto, desenhe muito.

>> Somado a isso, um bom cartunista não pode ter só um bom desenho. Além de saber desenhar, é imprescindível ser uma pessoa bem informada. Isso se aplica tanto na hora de fazer uma charge como um cartum e até mesmo uma HQ. Cultura é fundamental para qualquer atividade na vida. Para um cartunista, mais ainda. Por isso, leia muito. Sabendo mais, fica muito mais fácil pensar.

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