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Jobs não morreu

:: por Redação macmais :: 23/02/2012 :: Deixe um comentário

*Heinar Maracy (@heinar)

Nunca a morte de um CEO comoveu tanta gente no mundo. Provavelmente nenhuma outra irá. Por mais visionários e revolucionários que sejam, donos de corporações fatalmente acabam sendo vistos pelas massas deslavadas como porcos capitalistas interessados apenas em maximizar seus lucros e egos. Ninguém acenderá uma vela por eles. Qual a diferença de Steve Jobs para seus pares? Por que tantos choram com a morte de um bilionário?

Steve Jobs em um dos famosos keynotes da AppleA lista de motivos é grande, mas a principal é ter construído uma empresa gigantesca em torno de um ideal simples: computadores devem ser fáceis de usar. Em uma indústria comandada por engenheirose programadores, a Apple se destacou por tirar o poder das mãos dos donos do conhecimento e entregá-lo ao homem comum. Foi assim com o Apple II, o Mac e o iPad. Com esse foco, criou produtos que todos sempre quiseram ter e não sabiam que queriam até vê-los à sua frente. Junte a isso o perfeccionismo, a atenção aos detalhes, a integração harmoniosa entre hardware e software e a diretriz de sempre inovar – mesmo que isso desagrade a seus próprios consumidores – e temos o principal legado de Jobs.

Se ele parasse por aí, teríamos o Thomas Edison dos nossos tempos. Mas ainda tem mais. Jobs também foi um hábil e duro negociador, um líder carismático, um administrador rígido, um showman e um mascate de primeira que não negou seu DNA fenício, mesmo sendo adotado por ímpios americanos de classe média. Tudo isso contribuiu para o mito, que ainda teve lances hollywoodianos (quiçá janeteclairianos), como a queda e o ostracismo, a volta para resgatar a empresa quase falida, sua transformação triunfal na maior companhia do mundoe a indômita luta contra o câncer.

Mas tudo isso não valeria nada não fosse a aderência estóica a seu objetivo original, sua missão, seu ideal quase libertário de dar “poder para o povo”. E sua habilidade de agregar talentos capazes de fazer produtos que tornavam algo que antes era complicadoe cabalístico em algo simples, intuitivo e agradável. Produtos que parecem ter vindo do futuro ou de alguma dimensão mágica dominada pelo bom gosto.

Quem compra um produto Apple percebe todo o suor e massa cinzenta gastos em melhorar sua experiência de uso e tornar sua vida mais fácil. Consequentemente, ama seus produtos e, por metonímia, sinédoque ou sei lá qual figura de linguagem, ama a Apple. Como a Apple é Jobs e Jobs é a Apple, temos aí a resposta para o enigma do CEO mais amado do mundo. Todos chora.

Aos órfãos que se descabelam temendo que a Apple a partir de agora caia em lento e ribanceiro declínio sem seu timoneiro, é bom lembrar que Jobs não era um inventor. Ele não criou o Apple II, nem o Mac, nem o iPod, nem o iPhone, nem o iPad. Mesmo em seus piores momentos, nas décadas de 1980 e 1990, com Jobs expulso e a direção desgovernada, a Apple continuou inovandoe criou grandes produtos (OK, não eram INSANAMENTE GRANDES, mas eram razoavelmente grandes). O momento agora é outro. Jobs teve uma década e meia para montar uma equipe totalmente afinada com a missão original da Apple e capaz de carregar seu legado. Em caso de dúvida, bastará ao corpo de diretores pensar “o que Steve faria?” e seguir em frente.

Budista, vegano, crente no karma e na reencarnação, Steve não deve demorar muito para estar novamente entre nós. Provavelmente já voltou como um garotinho indiano que vai passar a infância mexendo em um tablet de 35 dólares e, quem sabe, um dia pode virar CEO.

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*Matéria publicada originalmente na macmais 66.


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