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Lembranças de quando a Apple não vencia nos tribunais

:: por Redação macmais :: 22/11/2012 :: Deixe um comentário

Prato frio, por Mario Amaya (@marioamaya).

Matéria originalmente publicada na macmais 76.

Nos dias de hoje, a Apple é bem conhecida por proteger a qualquer custo suas invenções. Isso se comprovou exemplarmente em seu processo contra a Samsung. É possível afirmar pragmaticamente que a empresa não teve alternativa senão copiar a Apple, pois só assim conseguiria competir como o principal nome do mercado associado à plataforma Android – esta em si mesma uma pedra no sapato da Apple, que o próprio Steve Jobs viveu o suficiente para maldizer. No entanto, a Apple estava pronta para infligir um golpe devastador na rival coreana. Pudera: no passado, ela perdeu de maneira humilhante uma disputa muito similar com a Microsoft… e está bem claro que aprendeu a lição direitinho.

Quando a Apple lançou o Lisa e o Mac, respectivamente em 1983 e 1984, o mundo da computação já fervia de ideias relativas a implementar GUIs (interfaces gráficas, isto é, telas visuais compostas por ícones, menus e janelas), em substituição à repelente tela de texto puro que caracterizava os computadores pessoais da época, como o Apple II e o IBM-PC. Pode-se atribuir a origem dessas ideias ao centro de pesquisas da Xerox, o PARC (Palo Alto Research Center), quase vizinho à Apple. Em 1980, a Apple abriu seu capital; a Xerox obteve um pacote inicial de ações, em troca de uma visita ao PARC por Steve Jobs, recém-empossado na equipe de desenvolvimento do Macintosh, e seus jovens engenheiros.

A turma da Apple ficou chocada ao descobrir o quanto o PARC já estava avançado com as tecnologias que definiriam a computação nas décadas seguintes: redes de dados, programação orientada a objeto e interfaces gráficas. Ficou claro para Jobs que, no futuro, todos os computadores seriam operados visualmente. Não perdendo a oportunidade, ele redefiniu o conceito do Macintosh, de um computador simples e despretensioso para uma plataforma avançada baseada numa GUI. Jobs não só adotou as ideias da Xerox como contratou de lá vários pesquisadores para prosseguir seu desenvolvimento dentro da Apple (não é verdade que a Apple tenha “roubado” tudo pronto da Xerox; conceitos fundamentais como o arrastar-e-soltar foram criados lá, sob a batuta de Jobs).

Embora o Mac não tenha sido de início um grande sucesso de vendas, ele causou forte impacto na indústria. A primeira geração do IBM-PC era muito fraca para exibir imagens gráficas pixeladas, mas era mera questão de tempo para isso mudar com a evolução natural do hardware. Já que a Apple se recusava a licenciar sua tecnologia para outros fabricantes, Bill Gates decidiu que faria sua própria versão da GUI para o PC. Assim surgiu o Windows, um produto que enfrentou e aos poucos venceu a Apple em seu próprio mercado.

No entanto, a Microsoft não era a única empresa querendo aproximar o PC do Mac na usabilidade. Algumas, como a Visi On, perderam-se nas brumas do tempo. Outras tentaram deixar sua marca. O esforço mais bem-sucedido chamava-se GEM e foi criado pela Digital Research – a mesma empresa que criara o sistema operacional CP/M, adquirido em 1981 pela Microsoft para dar origem ao DOS dos PCs. O GEM, espantosamente parecido com a GUI do Mac, tornou-se a interface oficial do computador Atari ST e obteve notoriedade no PC por ser o ambiente no qual rodava o pioneiro programa de editoração Ventura Publisher. A Apple processou a Digital Research em 1988, obrigando-a a limitar a funcionalidade de seu produto, efetivamente impedindo-o de competir. A Digital Research sentiu o golpe e murchou até ser comprada pela Novell, em 1991.

A Microsoft prometeu uma GUI para o PC antes mesmo de o Macintosh ser lançado. Na verdade, ela não tinha produto nenhum para mostrar; toda a conversa sobre o tal do Windows, que ninguém jamais tinha visto, era pura retórica para brecar o interesse do público por eventuais produtos concorrentes que pudessem surgir no mundo PC. Quando o Windows 1.0 finalmente foi lançado, em 1985, era ridiculamente inferior ao System do Mac. Isso era em parte porque a Apple, com quem a Microsoft tinha então boas relações, exigira que o novo produto não lembrasse muito o Mac. Os elementos fundamentais da GUI – ícones, janelas, menus – estavam lá, e a Microsoft os utilizou por meio de um acordo de licenciamento com a Apple.

A diferença mais visível do Windows 1.0 para o System do Mac era a impossibilidade de sobrepor janelas; elas só podiam ficar lado a lado. O Windows 2.0, de 1987, ignorou essa limitação, e isso foi o estopim para a Apple entrar com uma ação contra a Microsoft por plágio da GUI. O processo se arrastou de 1988 até 1994 e azedou seriamente as relações entre as duas empresas. Até os usuários fiéis de Mac e Windows entraram no clima e passaram o resto da década tratando-se como inimigos.

A Microsoft não se intimidou com o ataque da Apple. Quando saiu o Windows 3, em 1990, a Apple listou seus novos recursos como provas de acusação adicionais no processo contra a Microsoft, mesmo estando o Windows 3 ainda muito aquém do System 7 do Mac em qualidade de interface. A Apple previu que o Windows iria evoluir até tornar-se indistinguível do Mac para um leigo em computação, o que de fato ocorreu entre as versões 95 e XP.

Por fim, a HP jogou lenha na fogueira ao lançar para o Windows 3 um ambiente operacional chamado NewWave, que fazia uma aproximação ainda melhor do funcionamento do System do Mac. Resultado: a Apple processou a HP também.

O argumento de acusação da Apple contra as outras empresas era de que elas estavam roubando o “look and feel” (aparência e usabilidade) do Macintosh, que estaria coberto pela lei de copyright. Para essa interpretação funcionar, porém, seria preciso convencer o tribunal de que a invenção da Apple compreendia a interface completa – ícones, menus e janelas – e não apenas um ou outro desses elementos. A corte insistiu em analisar os elementos em separado, o que demoliu o argumento da Apple: dentre 189 elementos da interface do Mac, 179 estavam cobertos pelo acordo de licença original do Windows 1.0, e os demais 10 não podiam ser considerados invenções da Apple. A corte decidiu que um sistema operacional somente poderia ser considerado plágio do outro se eles fossem indistinguíveis em suas implementações, o que claramente não era o caso. As ideias fundamentais que constituem uma GUI não pertenciam à Apple: somente sua expressão específica.

Para adicionar um toque de ridículo à situação, a Xerox processou a Apple pelo “roubo” de ideias do PARC. Por que ela faria isso uma década depois do fato consumado? A intenção era reclamar a primazia sobre as invenções, caso a Apple vencesse a Microsoft. Como isso não aconteceu, a Xerox também ficou de mãos abanando. E todo mundo pôde criar variações da GUI para uma imensa variedade de produtos. Daí veio a Samsung e… bem, os advogados atuais da Apple são muito mais competentes que os de antigamente.

Como ironia nunca é bastante, assim que retornou ao comando da Apple em 1997, Steve Jobs – que certamente nunca foi famoso por ser pragmático – foi logo fazer as pazes com Bill Gates e estabeleceu com a Microsoft uma série de importantes acordos de parceria, que permitiram à Apple salvar-se da ruína e à Microsoft continuar a sua dominação total e desimpedida do mercado PC.

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