O iPad que não houve
Por Mario Amaya*
Na edição anterior descrevemos o mítico Knowledge Navigator, um produto conceitual que a Apple divulgou em 1987 como um possível paradigma de computação pessoal para dali a 25 anos, ou seja, daqui a pouco. Ele seria um computador em forma de tablet, baseado numa touchscreen (só que dobrável ao meio), e teria funções de conectividade em rede com multimídia e videoconferência – recurso visionário, se pensarmos que ainda não existia a web no cenário tecnológico.
A novidade na usabilidade era que você não usaria mouse ou caneta de tablet para apontar coisas na tela, e sim o próprio dedo. E mesmo essa interação seria reduzida, pois o computador seria inteligente o bastante para conversar com o usuário, em linguagem normal de gente.
A conversa natural é um recurso que ainda escapa totalmente ao alcance dos nossos computadores. Já a portabilidade, a conectividade, a multimídia e a tela de toque foram todos incorporados a produtos reais, culminando no iPad. Cinco anos depois do anúncio do Knowledge Navigator, a Apple já tinha uma noção precisa do que poderia fazer com a tecnologia corrente e com ela criou a plataforma Newton.
A tela seria sensível ao toque, mas utilizaria uma caneta (stylus) que permitisse o reconhecimento da escrita normal da pessoa. A versão menor e mais portátil (batizada de MessagePad) seria a prioridade; versões maiores, com funções agregadas, ficariam para uma geração futura.
Neste ponto, a diferença entre aquela Apple de John Sculley e a atual de Steve Jobs salta à vista em dois aspectos cruciais. Naquele tempo, a empresa falava abertamente de seus planos futuros, muito à maneira da Microsoft de hoje. É por esse motivo que sabemos no que o Newton poderia ter se transformado se não sofresse tantas dificuldades de implementação e adoção durante sua curta carreira.
O segundo aspecto em que a Apple de então difere da de hoje era na ambição de expandir o primeiro produto para uma família muito complexa, cobrindo um grande leque de funções. O Newton poderia dessa forma transcender o universo de um computador de mão e também o do PC de mesa, que em 1992 ainda estava começando a ceder espaço para os notebooks. Na vida real, porém, a Apple de Steve Jobs acabou ficando com uma linha bem definida e enxuta de produtos faz-tudo.
Quais eram os produtos que a Apple queria criar com a tecnologia do Newton? Isso é descrito em detalhes num folheto que a empresa fez circular em 1992, pouco antes de o primeiro MessagePad ser lançado. Veja o que a Apple tinha nos planos há 18 anos.
Bloco de notas 3×5″

Munido de dicionário e corretor ortográfico automáticos, ele converteria seus garranchos em lindo texto formatado para impressão. O MessagePad acabou ficando bem parecido.
Cartilha eletrônica

O aparelho mostraria letras na tela para a criança copiá-las logo abaixo, e então analisaria a escrita e daria dicas. Além disso, poderia conter uma variedade de jogos e atividades educativas.
Fax e telefone
Combinação de agenda eletrônica com email e fax. O fax era um produto essencial na época anterior à web e a Apple pensou várias vezes em fazer um aparelho desses, criando protótipos baseados no Macintosh e no Newton. Chegou muito perto de fabricar algum deles, mas desistiu da empreitada. O produto não chegou a fazer falta.
Assistente de sala de aula
Este produto seria a combinação de uma dupla de módulos: o quadro branco inteligente e os cadernos eletrônicos dos alunos. Tudo o que o professor escrevesse no quadro seria transferido, via rede sem fio, para os aparelhos dos alunos. Estes poderiam, por sua vez, enviar ao professor suas dúvidas e respostas. E o professor poderia mostrar no quadro branco o trabalho de qualquer aluno, a qualquer momento.
Mapa digital
Função ousada e futurista que acabou se materializando no iPhone e no iPad. O aparelho conteria GPS e mostraria na tela o mapa de localização de qualquer lugar no mundo. A informação que o iPhone ou iPad busca na internet – endereços de locais de interesse e outros dados geográficos – seria carregada no Newton através de um cartão de memória.
Prancheta de arquitetura
Uma versão do Newton de grande formato, em forma de maleta, com tampa e alça. Seria adequada para um arquiteto usar em campo.
Ademais, o dispositivo deveria ser capaz de reconhecer as fórmulas e símbolos técnicos que fossem rabiscados na tela pelo usuário.
Controle de estoque
Desde 1992, os populares aparelhos dedicados para coleta de dados industriais e controle de estoque foram sendo paulatinamente substituídos por PCs e palmtops adaptados à função. A proposta do Newton seria em forma de bracelete e faria comunicação com um servidor em tempo real e sem fio.
Quadro de avisos da família
Uma reinvenção das triviais notas de porta de geladeira. Além de armazenar anotações, recados, números de telefone e listas de compras, ele poderia também fazer o controle da despensa.
Claro que ninguém na Apple pensou que rabiscar notas num aparelho grudado verticalmente não seria tão confortável quanto escrever com uma caneta Bic num Post-it, mas devemos reconhecer a engenhosidade do conceito.
Mario Amaya acha que a Apple não conseguiu prever uma coisa importante nesses projetos todos: que o produto seria bem mais fino, como o iPad é.
*Matéria originalmente publicada na MAC+ 45







