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Peixonauta, do Discovery Kids, é do Brasil e do Mac

:: por Redação macmais :: 04/04/2012 :: 3 comentários

*Por Sérgio Miranda

Houve uma época em que desenho animado brasileiro parecia fadado a ficar preso ao mundo da publicidade, ou então eram produções para o cinema, caras e que não atraíam tanto público como seus concorrentes estrangeiros. Eis, então, que um pequeno peixe com capacete de astronauta rompeu todas as barreiras e preconceitos e acabou se tornando um dos mais assistidos no canal pago Discovery Kids, dirigido a crianças bem pequenas (até seis anos de idade). Feito no Brasil e, melhor ainda, totalmente animado em Mac, o Peixonauta é um sucesso.

Quem acompanha a macmais há bastante tempo já conhece uma parte dessa história, pois, em nossa já clássica e esgotada edição 3, entrevistamos os criadores desse peixinho aventureiro e ecologicamente correto. Kiko Mistrorigo e Célia Catunda são os sócios da TV PinGuim, produtora por trás do Peixonauta e de muitos outros sucessos de animação, como a série De Onde Vem? e Rita, ambos exibidos na Rede Cultura, de São Paulo. “A Célia desenhou a Rita com o mouse em um programa chamado Video Works, e depois passamos para o Macromedia, todos em versão 1.0”, lembra Kiko. Hoje, a produtora conta com 12 profissionais, mas durante a montagem dos episódios do Peixonauta, já chegou ater 70 pessoas trabalhando. Sempre em Mac. “Meu primeiro Mac colorido custou cerca de US$ 14 mil. Tenho-o até hoje”, conta Mistrorigo.

macmais Eu, particularmente, sou do tempo em que víamos desenhos animados da Warner ou da Hanna-Barbera em que era possível perceber a pintura no celuloide. Hoje, é praticamente tudo feito no computador. Como você vê essa diferença, acha que, ao usar o computador, perde-se qualidade?

Kiko Mistrorigo Acho que não, acredito que a grande vantagem do computador, que é o que sentimos ao longo dessa evolução toda, é que podemos ver uma prévia do que vai acontecer. Obviamente, isso muda a maneira com que se organiza o trabalho. Para quem não está nem aí ou para quem começou agora, pode ser que não faça diferença. Acho incrível o cara sentar no aeroporto e poder editar o vídeo ali mesmo, usando um notebook. Antigamente era um horror. Mas acredito que tudo depende da pessoa, da ideia. Nós temos a experiência do Peixonauta, e penso que ela que é a melhor prova disso.

macmais Quando conversamos para a matéria da macmais 3, o Peixonauta ainda era um rascunho e chamava-se Fishtronaut [que é o nome dele lá fora], mas a ideia ainda não tinha vingado.

KM É uma coisa que não depende de técnica ou de como você faz. O importante, algo que repetimos sempre, é que não existe mágica. Isso tudo não nasceu em um dia. Em 2000, a Célia riscou em um papel, para o suplemento“Estadinho”, o que seria um peixe que carregava água consigo. No entanto,aquele personagem ficou perdido no meio dos trabalhos. Então, temos uma questão empreendedora, porque quando se uma estrutura de trabalho, uma empresa, é preciso pagar contas. E o problema disso é que não há tempo de pensar nas ideias, pois existe a preocupação em arranjar trabalho, trabalhar e, enfim, pagar as contas, para, no mês seguinte, começar tudo novamente.

macmais E as ideias ficam atropeladas.

KM É, porque nos tornamos prestadores de serviço. Então, tomamos uma decisão. O Peixonauta foi um empreendimento que começou em 2004 e foi ao ar como uma série comum. Foi a primeira vez que se desenvolveu uma série desse tamanho no Brasil e que a Discovery fez uma série fora dos Estados Unidos. Foram várias “primeiras vezes”. Mas sempre existe uma curva. Quando estreou, o negócio demorou a atingir o público, porque animação para série pré-escolar sempre tira outra do lugar. E certamente havia crianças que gostavam do desenho antigo. É como novela nova.

macmais Ainda mais que criança tem aquela coisa de fidelidade, de “eu sei o que é isso enão quero saber do resto”…

KM É. Normalmente, um programa novo começa em baixa, demora de seis meses a um ano para começar a pegar. O Peixonauta foi para o primeiro lugar do horário, horário nobre que era 11h30 e 7h30 da noite. Ficamos todos muito contentes, mas achávamos que era um fenômeno de novidade. Contudo, a audiência subiu mais e está até hoje lá em cima – o programa é primeiro colocado.

macmais Como é fazer desenho para crianças dessa idade, já que elas crescem e param de assistir a desenhos mais infantis?

KM As crianças vão crescendo, mas daqui a pouco vem uma segunda leva. O incrível de tudo isso é que o sucesso não é só no Brasil, mas em vários países da América Latina. Ele está super bem colocado. Agora, estamos preparando a segunda temporada, um longa-metragem, peça de teatro, um monte de coisas que são decorrentes desse sucesso inesperado.

macmais Qual é o seu desenho animado preferido?

KM Ultimamente é A Mansão Foster para Amigos Imaginários. Eu gostava muito do Manda-Chuva e do Tom & Jerry. Tom& Jerry passava no cinema, aos domingos de manhã, e meu pai me levava para ver. Quando surgiu a TV em cores, o SBT [na época, TV Tupi] botou Tom & Jerry na televisão. Era um acontecimento inacreditável! Como aquele negócio a que a gente assistia no cinema, que era superdifícil de ver, foi passar na televisão? Foi incrível! Essa é mais uma diferença, as crianças de hoje ficam 24 horas em frente à tela, com seis canais para elas.

macmais No meu tempo, havia um horário certo para desenho…

KM E depois veio a internet, que tem tudo à disposição. É uma relação muito diferente, é um acesso muito mais fácil.Isso tudo também deve ser levado em consideração – as coisas são mais rápidas.

macmais Você tem Macs na produtora agora?

KM Entre Power Macs G5, G4, Mac minis e MacBooks, são, ao todo, dez máquinas.

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macmais E, atualmente, qual seu Mac de casa?

KM Na minha casa, uso um iMac Intel Core2 Duo 2.0 GHz de 24 polegadas. É rápido, prático, bonito, não ocupa muito espaço e fica bom em qualquer lugar.

macmais Trabalhando com animação, não dá para usar mouse o tempo inteiro. Vocês começaram em 1988. Quando você viu aprimeira tablet?

KM A primeira tablet que compramos era uma porcaria. Nem lembro o nome.

macmais Com as tablets, vocês tiveram um deslumbre de que agora animação no computador ia dar certo?

KM O primeiro programa de animação 2D era o Animation Stand (que nem existe mais). Ele era caríssimo e vinha com um adaptador pentelho que não deixava nada funcionar. Nós o instalamos, e a primeira versão, que era para usar com tablet no computador, não fez sucesso, porque os animadores da época queriam desenhar no papel, onde se sentem seguros. Na segunda versão, já era possível usar com scanner. Hoje em dia, existem programas que organizam o fluxo de coisas digitalizadas. Isso foi em 1992, 1993. Na época, fizemos o Castelo Rá Tim Bum, depois da Rita.

macmais Quantos projetos vocês já fizeram?

KM Fizemos, para TV, nove séries, mas não com o mesmo tamanho do Peixonauta. Foram séries para o mercado brasileiro, como De onde vem, Rita, Castelo Rá Tim Bum, um monte de animações para séries educativas, que é o mercado em que podíamos operar. Na TV comercial, fizemos o “Retrato Falado”, quadro doFantástico com a Denise Fraga. Também fizemos a Ilha Rá Tim Bum, novamente para a Cultura.

macmais E o Cartoon Network?

KM Trabalhamos muito para o Cartoon. Tínhamos com eles uma relação que não era só “eles mandam, a gente faz”. Podíamos propor muitas coisas, como personagens usando diversas técnicas, ficaram muito bacanas. Criamos marionetes, origami entre outras coisas. O “Feitos à Mão”, uma série de vinhetas com massinha, ganhou medalha de bronze em um festival em Nova Iorque.

macmais Tem gente preparada para trabalharcom animação, ou vocês precisam modelar o cara?

KM Nós formamos muita gente, é inevitável. Animação ainda é uma novidade, apesar de muitas pessoas quererem trabalhar com isso, mas fazer direito é uma novidade. Existe um lado ruim dessa coisa do computador, que é o cara fazer duas animaçõezinhas, botar no YouTube e ganhar audiência pelo inusitado. As pessoas fazem coisas absurdas, ruins, mas jogam no YouTube e ficam famosas pela péssima qualidade. Esse fenômeno é muito curioso. Nós temos um jeito muito comum de avaliar. A pessoa vem, traz o portfólio e passa por um teste. Se não der certo, não fica.

Célia Catunda Hoje em dia, tudo parece fácil. Quando começamos, as pessoas nem sabiam mexer no computador, quanto mais em softwares específicos. Então, explicávamos assim: “aqui é o disco”.

macmais Como é o processo todo de um desenho? Tem que pensar na trilha, personagem e em quem vai dar voz a cada um? Como vocês trabalham com isso?

KM Nosso trabalho de criação é completo. A única restrição, nesse caso, é o Carnaval, para o Cartoon Network. Eram três peçasde 30 segundos e queriam usar o Acampamento de Lazlo, Billy e Mandy no outro e A Mansão Foster em um terceiro. Então, esse era o tema. Fizemos uma brincadeira que era com eles tendo aula de samba. Convidamos o Arnaldo Antunes para fazer a música. Então, ele cantava uma canção que era de um disco dele, que tinha os seguintesversos: “eu fico louco, eu fico forade si”. Todos os personagens, depois daaula, piravam. E era isso, as três vinhetastinham esse mesmo esquema.

macmais E no caso do Peixonauta, como foi montar toda a equipe?

KM A Célia é diretora de arte e diretorado Peixonauta. Nós dirigimos juntos. Existe um negócio, que percebemos com outras produtoras por aí, é que nosso envolvimento pessoal foi fundamental, porque pegar uma coisa do zero e fazer um projeto nunca antes feito é um tremendo desafio. Agora tudo está dando certo, mas passamos por muitos problemas, foi um processo bastante penoso. É preciso decidir quem trabalhará conosco, ou seja, quem serão os roteiristas, e aí descobrimos que não existe roteirista especializado. Em obra seriada, é necessário ter personagens fortes, seres completamente diferentes entre si, que convivam, mas não deixem de ser personagens. É o fenômeno da personificação, de se tornar em efetivamente indivíduos. Isso é um trabalho de maturação, não tem outro jeito. Para exemplificar, o Peixonauta é um peixe que voa, pode ficar no meio seco e levar informações lá para baixo. E ele tem uma amiga na terra, uma menina que é superinteligente, que tem boa intuição e conhecimentos da natureza. Há também o Zico, que é o bagunceiro. Ah, que legal, mas e aí? Agora preciso das histórias: o Peixonauta é sobre ecologia? Não. É sobre meio ambiente? Não. Na verdade, os personagens promovem o trabalho em equipe, bem como o comportamento saudável. Algum tempo atrás, a sustentabilidade não era tão banalizada como é hoje em dia, entretanto, a consequência de práticas sustentáveis adequadas é a preservação da natureza, do meio ambiente. Tudo isso é comportamento saudável, algo que respiramos 24 horas por dia durante, pelo menos, dois anos. A Célia gravava todas as vozes, e às vezes passava o final de semana inteiro nesse trabalho. Você mergulha e só sai um ano e meio depois. É legal, é muito gostoso, mas é cansativo. É intenso.

macmais O artista é o roteirista?

KM Não, embora exista essa confusão de que o animador é um artista por definição. O animador é um cara que precisa ter uma técnica super boa. O ilustrador é um artista. Nem todo ilustrador é um bom animador.

Criado por Célia Catunda, o Peixonauta demorou vários anos antes de se tornar realidade. Mais do que apenas salvar o ambiente, ele mostra para as crianças a importância de se trabalhar em equipe

 

 

CC Na série, quem faz a arte conceitual tem maior poder de criar conceito dos personagens, dos cenários…

KM Na verdade, é direcionar. Há alguns animadores que, na hora em que o macaco vai andar, dá uma expressão para a animação, o que é bacana. É o que não estava previsto. O roteiro apresentava algo como: Zico entra carregando não sei o quê, meio desengonçado. É o animador quem vai pensar em como é esse “meio desengonçado”. Logicamente existe todo um processo, o storyboard, as primeiras montagens. É um sisteminha para você ir apurando.

macmais Quanto tempo, em média, demoraem fazer um episódio do Peixonauta?

KM Como são várias equipes sobrepostas, do roteiro ao fim, teoricamente, demoramos uns dois meses por episódio. Em torno de oito a nove semanas. Cada episódio tem 11 minutos cravados, mais abertura e encerramento. E a gente faz 52 episódios.

macmais Que dicas você daria para quem estácomeçando neste mundo da animação?

KM Assista, experimente, pesquise. Existem várias técnicas de animação a serem exploradas. Com uma webcam,Flash, iMovie, GarageBand etc., é possível fazer um monte de coisas superbacanas.

macmais Animação 3D vai acabar com a animação tradicional? Este ano, a Disney lançou um longa com animação em 2D, mas é minoria.

KM Como a TV e a internet requerem menos “efeitos” que o cinema, a animação 2D continuará existindo, mesmo em HD. No cinema, além de filmes sensacionais (Pixar, Dreamworks etc.), temos inúmeros filmes de animação em 3D de qualidade mediana e muito parecidos entre si, uma vez que utilizam o 3D gratuitamente, sem grandes inovações. Há certo desgaste, e talvez seja por essa razão que a Disney resolveu apostar em um longa “tradicional”, do jeito que sempre gostaram de fazer.

macmais Como você vê o futuro da animação?

KM Extremamente promissor! TV, cinema, internet, jogos etc. O campo de atuação é tão amplo que o termo animação fica até meio vago. No Brasil, ficamos fora do “boom” da animação na TV durante os anos 90. Essa grande “marola” está chegando agora e teremos um crescimento muito grande da animação.

macmais E por que TV PinGuim?

KM Na verdade, não houve uma razão especial. Além de ser uma palavra sonora, é um bicho do hemisfério sul, muito persistente e interessante. É simples assim: Peixonauta é um peixe que voa, e o pinguim é uma ave que sabe nadar.

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*Matéria publicada originalmente na macmais 48.

 

3 comentários

  1. Ricardo prado comentou 20:14 às 3 de outubro de 2015

    Pelo visto é apenas um sonho ver uma animação brasileira de qualidade fazer sucesso o caso do peixonalta e outras coisas em outros seguimentos como música filmes se destacam muito mais pelas condições e contatos dos produtores do que pela qualidade, pelo menos aqui no Brasil. O fato de vender e dar dinheiro não significa necessariamente que é bom.
    Infelizmente no Brasil os casos de sucesso dependem apenas de contato não de talento.

  2. lucas comentou 10:37 às 2 de maio de 2016

    E quais são os software que usam hoje pra fazer as animações?

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