Home » Matérias » Entrevista » Conheça o pai dos Combo Rangers, o Fabio Yabu

Conheça o pai dos Combo Rangers, o Fabio Yabu

:: por Redação macmais :: 15/07/2011 :: 1 comentário

Por Sérgio Miranda; Fotos Hans Georg

Fabio Yabu (@fabioyabu) é um veterano. Do alto de seus 31 anos, já conhece o sucesso. “Quando vou a eventos, alguns fãs me dizem que aprenderam a ler com os Combo Rangers. Fico me sentindo muito estranho”, diz o criador das Princesas do Mar, desenho animado que já conquistou o mundo e agora é exibido na TV aberta brasileira (TV Cultura). Yabu começou na internet, onde foi um pioneiro da animação usando Flash, passou pelas revistas em quadrinhos e chegou à TV. Sempre com o mesmo bom humor e estilo simples, porém cativante.

O sucesso das Princesas do Mar gerou muitos frutos. São cerca de cem produtos licenciados, de cadernos a bonecas de todos os tipos. “Tudo aconteceu muito organicamente, desde a criação dos personagens, em 2004. Lancei quatro livros, depois veio o desenho animado. Foi a primeira vez que tive um plano de obra”, explica. Trabalhando em em casa, já que sua equipe de trabalho divide-se entre a Austrália e Espanha, Fábio não para de criar. Já está produzindo dois novos projetos: um desenho animado com dinossauros e unicórnios e um filme. Tudo isso com a ajuda de um iMac, um MacBooks, um iPhone, uma mesa Cintiq da Wacom e muita criatividade.

E pensar que essa história começou com um simples envelope desse fã do Lanterna Verde…

MAC+ Quando você percebeu que queria trabalhar com quadrinhos, com desenho?

Fábio Yabu Desde sempre. Quando eu tinha nove, dez anos, já desenhava, criava minhas historinhas. Nem sabia que era possível viver daquilo, mas eu já queria ficar só desenhando.

MAC+ Quais foram os seus primeiros personagens?

FY Os mais conhecidos foram os Combo Rangers, que desenhei de 1997 a 2003. Eles começaram na internet e depois viraram uma revista. Foi assim que tudo começou.

MAC+ Nenhum outro antes dos Combo Rangers?

FY Ah, tive alguns, mas eram coisa de criança… não, espere um pouco! Teve um, sim, agora me lembro. Foi o Pacificador, que veio antes dos Combo Rangers. Ele era um tipo justiceiro, e depois acabou entrando como personagem fixo do elenco. Cronologicamente, ele surgiu antes.

MAC+ Você se lembra qual foi seu primeiro trabalho publicado?

FY Lembro! Foi um desenho do Lanterna Verde publicado na revista Wizard, da Editora Globo, onde trabalhava um tal Sérgio Miranda, conhece? [risos]

MAC+ Esse empurrão o ajudou a tomar a decisão de tornar-se artista?

FY Na verdade, coincidiu com uma época meio mágica, que foi o nascimento da internet no Brasil. Foi nesse momento que as pessoas começaram a perceber que era possível produzir e publicar seu próprio conteúdo. Eu queria fazer as minhas histórias, mas não necessariamente na mídia impressa. Lembro claramente quando criei os Combo Rangers. Fiz tudo em uma noite. Comecei a desenhar por volta das 22 horas e à uma da madrugada, o site já estava no ar. Eles foram criados diretamente na internet. Peguei a versão do software Flash da época, que era uma tecnologia muito nova, e já comecei a desenhar. Era tudo mais simples do que é hoje, e eu era muito mais inteligente, tinha muito mais conexões neurais do que hoje! [risos]

MAC+ Em cerca de três horas você já tinha um site e personagens publicados?

FY Isso mesmo. Sem a necessidade de alguém me dizendo o que eu devia ou não fazer.

MAC+ Geralmente, os personagens saem do papel e vão para outras mídias, como o cinema. Você pode ter sido o primeiro a criar uma história na internet que depois virou uma revista?

FY Não sei, mas os Combo Rangers foram pioneiros no caso de personagens que nasceram na Web e depois viraram HQ. O primeiro número, se não me engano, foi publicado em 2000, três anos após o lançamento na internet.

MAC+ Naquela época você já usava Mac?

FY Não, eu usava outros computadores… [risos].

MAC+ Quando você passou a usar um Mac?

FY Comprei o primeiro um pouco depois do lançamento do iMac, no final dos anos 1990, antes do lançamento da primeira revista dos Combo Rangers.

MAC+ E você acompanha os lançamentos da Apple?

FY Sim, assisto a todas as keynotes de Steve Jobs, baixo-as pelo iTunes para ver com calma.

MAC+ O que mais chamou sua atenção no Mac?

FY Foi a questão da confiabilidade. Os PCs rodando Windows não oferecem isso até hoje. É você começar um desenho e terminar sem qualquer imprevisto, salvo queda de energia, que não dá para prever! Esses problemas, no PC, me deixavam muito irritado.

MAC+ As ferramentas para criação na web sempre foram mais direcionadas ao Windows. Isso não era um entrave?

FY Acabei usando as duas plataformas durante algum tempo. Isso começou a mudar com o lançamento do Firefox. Para mim, ele foi um divisor de águas, porque foi nesse momento que a internet no PC e no Mac ficaram iguais. A partir daí, pude dar adeus ao Windows em definitivo.

MAC+ Já trabalhou com uma equipe ou sempre foi um artista solitário?

FY Quando comecei, eu fazia tudo, escrevia e desenhava. Com a revista, por conta de toda a logística envolvida, como a gráfica, era preciso fazer duas edições por vez para economizar os custos, por isso, tinha uma equipe de três pessoas – o projeto chegou a ter sete pessoas envolvidas.

Direto no Mac O método de trabalho é bem simples: primeiro, desenhar à mão livre no papel, como qualquer mortal, depois digitalizar o trabalho usando um iPhone e finalizar os esboços usando uma Cintiq da Wacom conectado em um iMac

MAC+ E hoje, como é sua equipe?

FY Ela é toda virtual. Uma parte do desenho das Princesas do Mar é feita na Austrália e outra, na Espanha. Daqui eu coordeno o roteiro, o design dos personagens e ajudo na direção. Também pretendo tocar meus novos projetos dessa maneira, virtualmente. De vez em quando, é preciso de uma reunião, mas tudo é feito pela internet.

MAC+ As Princesas do Mar foram seu primeiro trabalho a chegar à televisão. Como foi esse processo?

FY As Princesas do Mar têm uma história interessante. Quando comecei com os Combo Rangers, eu era muito jovem, tinha 17 anos. O meu público, no máximo, tinha a minha idade, mas era geralmente bem mais jovem, com 10 anos, um pouco mais, um pouco menos. Só que essa molecada, hoje, já passou dos 20 anos e já tem filhos. Eu já tenho duas gerações que conhecem e apreciam meu trabalho. Percebi, ainda na época dos Combo Rangers, que as coisas aconteciam por inércia. Comecei algo na internet, que foi crescendo, mas nada daquilo foi planejado. Eu fazia tudo sozinho, depois precisei de uma equipe, vieram os produtos licenciados, mas nada disso foi feito como se eu soubesse qual seria o próximo passo. Tudo ia acontecendo. Peguei umas crises mundiais terríveis, inclusive a “Bolha da Internet”. Isso influenciou meu trabalho. Por conta disso, resolvi que teria um projeto mais elaborado, com autoridade. Eu já conhecia o público, as ferramentas. Queria começar direito, com um plano. Então, arrisquei fazer um trabalho para uma audiência diferente, meninas de 4 a 6 anos de idade. Comecei do zero. Foi um movimento arriscado, mas que deu certo.

MAC+ Como é o seu processo de trabalho? Desenha direto no computador?

FY Ainda faço muita coisa no papel. Depois digitalizo e passo para o Mac. Ultimamente, tenho fotografado os desenhos com o iPhone e depois finalizo no Mac, usando uma Cintiq, da Wacom.

MAC+ A animação é feita apenas no computador?

FY Sim, usando Flash e CelAction, um software específico para animação.

MAC+ Os Combo Rangers já eram feitos em Flash, em uma época em que os profissionais ainda usavam celulóide para animar…

FY Foi muito engraçado, porque, quando comecei a animar personagens e também desenhar diretamente no Flash, o programa não tinha essa função definida. Eu fui a uma convenção da Macromedia, que era a dona do software, mostrei meu trabalho e eles me disseram que não sabiam que o Flash podia fazer aquilo. E hoje a quantidade de desenhos e videogames usando Flash é muito grande.

MAC+ Você se sente um precursor desse novo mercado?

FY Acho que não, isso teria acontecido de qualquer jeito. Várias pessoas já trabalhavam da mesma maneira que eu; talvez, eu tenha sido mais rápido para assimilar a nova tecnologia.

MAC+ Dá para dizer que você se sente realizado?

FY A natureza do meu trabalho é muito dinâmica. Quando você cria uma série para a TV, hoje, não é como antes, quando se criava algo para durar muitos anos. A única exceção que eu vejo a isso são Os Simpsons. Série animada não tem mais essa pretensão de durar tanto tempo. Desenhos fantásticos, como a Batman: Brave and the Bold, teve duas temporadas. Isso não é um demérito, é a nova natureza do mercado de animação. Os canais precisam trocar a grade muito rápido. A Warner, por exemplo, faz um desenho do Batman, que vai superbem, estoura, mas eles param e fazem outro, completamente diferente. De um ano para outro, tudo muda.

MAC+ E por que isso acontece? O público muda…

FY Isso também, mas existem muitos canais, e a demanda se altera muito rápido. O meio audiovisual está mudando muito rápido.

MAC+ O público está migrando da TV para a internet?

FY Sim, mas não é só para a internet. Temos muitas plataformas portáteis de videogame, como Nintendo DS, PSP, que são para o público mais jovem. A velocidade das mudanças é muito grande.

MAC+ Quanto tempo de vida, então, terão as Princesas do Mar?

FY Elas existem na TV desde 2007 e foram produzidos 104 episódios. Não sei se haverá uma renovação nisso.

MAC+ E já tem algum novo projeto?

FY Sim, já estou trabalhando em novos personagens. São os Unicórnios e Dinossauros. Eles não são inimigos, na verdade, são duas equipes, uma de meninos e seus dinossauros e outra de meninas, com os unicórnios, todos lutando contra um inimigo em comum. Além disso, já tenho um projeto para o cinema, que está bem encaminhado, um filme chamado A Última Princesa, mas não tem nada a ver com as Princesas do Mar. Ele foi pensado em um público mais família, de meninas de 6, 7 anos até os pais.

MAC+ Quais os softwares você usa normalmente?

FY Deixe-me pensar… Excel… [risos] Brincadeira! Photoshop e Illustrator. Uso um pouco o Painter, da Corel, mas o considero muito instável. Flash, hoje em dia, uso muito pouco. Meu trabalho é criar os personagens, desenhar. A animação fica por conta do pessoal lá fora.

MAC+ E como você vê hoje o mercado de animação no Brasil?

FY Acho que está crescendo demais. Principalmente na parte criativa. O Brasil sempre foi muito forte na mão de obra, pouca gente sabe disso. Muitos filmes de sucesso, como Aladin, tiveram participação de brasileiros. Mas a parte de criação está começando agora a desenvolver-se mais. Temos a TV Pinguim (veja a entrevista na MAC+ 48), a 2DLab. Tem muita gente fazendo. É algo sensacional.

MAC+ O computador tem muito a ver com esse crescimento?

FY Acho que o computador, em si, é relevante, como a questão de custos, que caíram bastante, mas o Brasil cresceu consideravelmente nesse tempo, permitindo que estúdios possam fazer coproduções e investir em feiras de animação no exterior, que é algo muito caro. Hoje, o país tem uma estrutura para ajudar os animadores a participar de feiras importantes. É uma grande convergência de fatores.

MAC+ Tem alguém, dos mais novos, que você tem acompanhado?

FY Tem o João Montanaro (@joaomontanaro), que aos 14 anos, é chargista político da Folha de S. Paulo. Ele é muito bom.

MAC+ Como é conviver com o público?

FY É muito legal. Nós percebemos quando uma pessoa vai a todos os eventos, e a vemos crescer. Tenho fãs que me acompanham desde os 10 anos de idade.

MAC+ E o iPad? Você acha que vai revolucionar como lemos?

FY Olha, ainda não tenho um. Eu já vi aplicativos de quadrinhos para o iPad, e isso me deixa preocupado. A experiência de ler gibis não precisa ser a mesma, ela pode evoluir, melhorar, mas minha preocupação é: como vamos formar novos leitores? Novos eu digo, crianças. Eu já tenho um aplicativo das Princesas do Mar para iPhone, mas sou contra toda essa interatividade prometida pelo iPad. Parece o Flash, quando apareceu. Tudo tem que brilhar, se mexer, e não é por aí. Acho que sou uma das pessoas que não gostou do livro Alice no País das Maravilhas. Eu sei o que quer dizer o verbo crescer, não preciso ver a Alice espichando. Eu não quero que um livro “se leia” para mim. Aos poucos, as pessoas verão que estão focando nas coisas erradas. Agora é a época do exagero. Mas é a experiência que precisa ser valorizada.

1 comentário

  1. Reano comentou 20:55 às 21 de janeiro de 2011

    Muito legal a matéria. Meu filho adora o Discobery Kids e eu não fazia idéia de que as Princesas do Mar eram feitas por um brasileiro.

    Bem bacana ver que as animações brasileiras, especialmente para o público infantil, tem tido tanto destaque.

    Vale ressaltar além das Princesas do Mar- apenas no Discovery Kids – o Peixonauta (que já foi matéria da Mac+) e o Meu Amigaozão.

Deixe um comentário

 

Publicidade