Quem precisa de Mac Pro?
Em uma sexta-feira de janeiro, dou uma passada no Tapas Club para conferir o som do Drumagick, os irmãos prodígio do Drum&Bass. Na saída, o som do lounge chamou a atenção. Uma versão D&B de “Maria Fumaça”, da banda Black Rio, tema da novela Locomotivas (valeu Google!). Um remix bacana, com a batida eletrônica casando perfeitamente com o samba funk original, sem se sobrepor aos instrumentos gravados há mais de 30 anos. O DJ operava um PowerBook G4 atrás de um vidro em uma bancada onde, em um bar tradicional, estaria o pizzaiolo sovando a massa. Fui lá perguntar de onde tinha saído aquele mix.
– Eu mesmo que fiz.



O DJ com cabelo no meio-termo entre um rastafari e um Harlem Globetrotter me deu um cartão, que, além de propaganda de seu programa de rádio (Energia 97, todo domingo, às 21h), trazia uma raspadinha com um código para baixar duas músicas de um site. Foi aí que caiu a ficha. Estava diante de Ramilson Maia, lenda viva da eletrônica brasileira, que já produziu e remixou músicas de Daniela Mercury, Roberto Carlos, Vanessa da Mata, Fernanda Porto, entre outros. Papo vai, papo vem, descubro que Ramilson e seu parceiro, Fernando Ferds, estão finalizando um disco em homenagem a São Paulo. Todo feito em Mac, claro. E mais: em Macs de quatro ou cinco anos atrás.

Em tempos de distribuição digital, nada como um cartão de visitas que permite baixar suas músicas
Macaco velho
Ramilson começou a fazer música no computador com um Atari 1040ST, máquina lançada em 1987, bem mais barata que um Macintosh da época, mas com recursos de áudio bastante avançados, como um gerador de som com três vozes e interface MIDI embutida. Usava o Notator, programa que deu origem ao Logic da eMagic, empresa comprada pela Apple em 2002. “Usei durante um bom tempo o Logic no PC, mas sempre fui doente para comprar um Mac”.

Fernando e Ramilson provam que você não precisa ter o último Mac para fazer um bom disco
Seu primeiro Mac foi um PowerMac 7100, logo substituído por um 9500. Hoje trabalha com duas máquinas: um PowerBook G4 de 1,5 GHz e um Power Mac G4 com uma interface Motu de 24bits para captação de áudio. “O disco inteiro foi produzido e mixado no PowerBook, usando o Logic 8. Apenas a gravação de alguns vocais e a masterização foram feitas em um Power Mac com interface de audio ProTools e plug-ins TDM e analógicos, nos estudios Zoo International, do produtor Mad Zoo.
“Apesar de ser possível realizar todo o trabalho no Logic, o ProTools ainda tem plug-ins que dão melhores resultados na finalização. Depois de passar por ele, as músicas ficam com uma sonoridade diferente, mais quente e brilhante”, diz Fernando, o outro lado da dupla.
Fernando e Ramilson têm uma teoria inédita nos anais da música digital. “O chip Motorola dos PowerPC soa melhor que Intel”, dizem categoricamente. “Fazemos o mix no PowerBook e no G4; quando abrimos o mesmo projeto em um Mac Intel, sempre temos que dar uma ajustada na equalização. Nunca fica a mesma coisa. Os Macs G4 têm um som mais gordo”. A certeza disso é tanta que os dois investiram em uma placa dual G4, da Sonnet, para seu Power Mac.
Música para humanos

“Eu faço música para ser humano, não para máquina”. É assim que Ramilson define seu som. Segundo ele, o computador tornou muito fácil fazer música e isso pode ser uma armadilha. “Muita gente se ilude e acaba fazendo um som baseado no acaso. Mexe em alguns botões e slides até descobrir um timbre ‘bonito’ e faz uma música com ele. Nós partimos do lado oposto. Temos uma ideia musical que precisa de uma sonoridade X. Aí, usamos o Mac para encontrar esse som. Ele pode estar em um loop, em um sintetizador vintage, que usamos apenas para pegar o sample, ou em um instrumento convencional. Nosso disco tem trompete, violão, tamborim, guitarra, tudo tocado em instrumentos reais e trabalhado no Mac. As músicas têm letra, melodia, harmonia”.
“Essa é uma característica do meu trabalho desde sempre. Acho que foi o motivo do meu sucesso no exterior. Minha primeira canção de sucesso lá fora foi ‘O Sorriso da Cuíca’. Uma música eletrônica com uma cuíca sampleada que os gringos adoraram”. Enquanto fala, Ramilson tenta desesperadamente fazer um HD externo que está dando sinais de exaustão montar no desktop do PowerBook. Depois de umas três tentativas ele aparece no Desktop. Então, ele finalmente coloca o “O Sorriso da Cuíca”, que começa parecendo techno old school com bateria Roland e sons saídos do Reason, mas logo vira um xaxado eletrônico com uma cuíca safada flutuando. “Meu caminho sempre foi este, tentar fazer música eletrônica brasileira misturando samba, rock, bossa nova e atualizando essa riqueza musical que temos. Acho uma pena que não tenha mais gente fazendo o mesmo”.
Feito em casa

Pra que estúdio? Sonex na porta, na janela e um abraço!
Quem precisa de estúdio? Os instrumentos reais foram gravados no apê-estúdio-sede da gravadora-quartel-general na rua Bela Cintra, centro de São Paulo. “Os instrumentos eletrônicos a gente pluga direto na MOTU. Para os acústicos e vocais, temos umas placas de Sonex (espuma de isolamento acústico) que colocamos nas janelas e dão conta do recado. E sempre tem o truque de tocar no banheiro para ganhar uma certa reverberação”. Alguns vocais principais foram captados em outro estúdio, pelo produtor Mad Zoo. “O auxílio do Mad Zoo casou perfeitamente com o nosso método de produção. Queríamos uma sonoridade tipo anos 60 e ele foi atrás, usando técnicas de gravação da época dos Beatles para as vozes”.
Vale a pena lançar disco no final da primeira década do século 21? “O disco é mais um cartão de visita, uma ferramenta de marketing, que um produto comercial. Começamos a fazer as músicas e fomos percebendo que elas tinham cara de disco, não de singles para pista. Mas sabemos que com a ida das gravadoras para o brejo, o consumo de música hoje em dia é digital. Não temos pretensão de ganhar dinheiro com o disco”.
Onde está o dinheiro?
Se disco virou um press-release redondo, de onde os músicos eletrônicos tiram seu ganha-pão? “Shows, com certeza. Estamos com um live set em cima do In São Paulo, que já tem alguns shows programados no Brasil e Itália. Nele, usamos dois MacBooks com o Ableton Live, que dá mais flexibilidade na hora de tocar ao vivo. O Live deixa os dois Macs sincronizados no mesmo BPM, de modo que fica fácil improvisar seguindo o comportamento da pista”.
Remixes de artistas famosos também dão uma graninha. “Geralmente é a gravadora que paga, são remixes para promover um disco ou versões promocionais de músicas de trabalho. Às vezes dão muito trabalho, como o medley de canções do Roberto Carlos que eu fiz com músicas dele da década de 1970. Demorei um mês para mixar tudo, mantendo a integridade das canções originais, que são perfeitas. Adoro Roberto! Mixar músicas dele foi um sonho de infância que virou realidade”.
In São Paulo – O Disco
Quem ouve o disco de Ramilson e Fernando não vai saber a diferença entre ele ter sido gravado em um quarto e sala com vista para o Cemitério da Consolação ou nos estúdios Abbey Road. O som é perfeito, a mixagem é repleta de sutilezas e o clima é… paulistano. Não é possível dizer que é um disco de house, apesar de a maioria das músicas puxarem para esse lado.

A impressão que se tem é de que são dois discos em um. As primeiras faixas são bem pop e feitas para tocar nas rádios de qualquer cidade do mundo. Letras em inglês, um certo clima anos 80, New Order, levadas Disco comandam até a metade do CD. A partir da faixa 6, a primeira que cita nominalmente um local de São Paulo (Mercado Central), a coisa muda. Entram os tamborins de escola de samba acompanhando um tema a la Kraftwerk. Ramilson mostrando a que veio.

Desse momento em diante, é puro samba-house, para horror dos puristas de ambos os lados. Ficamos até emocionados com uma faixa intitulada “Bella Paulista”, em homenagem à padaria 24 horas localizada aqui em frente à redação, que saciou nossa fome em tantos fechamentos pela madrugada. Mas a cereja do sorvete é “Trianon”, um sambinha etéreo, com violão, bumbo e mellotron. Clássico instantâneo.
Quem quiser ouvir, basta ir até o site deles no MySapce.


Sensacional a matéria! Parabéns ao Ramilson e ao Fernando pelo incansável trabalho!
Abraço, Daniel.
Show de matéria heim. Isso sim que é fazer música!
Muito boa matéria. Sugiro que a revista dê mais atenção aos iniciantes e ao público com conhecimento médio da plataforma.
Este venho acompanhado o Ramilson desde de o seu começo…um cara simple que veio ao meu encontro e disse “ai brother como vai” a + ou – 15 anos atrs na galeria 24 de maio e eu quem é este cara gente finicina né? … eu ainda novo frequentador daquele predio antigo no centro de Sampa…hj o cara esta ai com toda a força sucesso e ontinua o mesmo parabens Ramilson Fernando e MacMag valeu Duo