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Conheça João Velho, cineasta e usuário de Mac

:: por Redação macmais :: 16/09/2011 :: 2 comentários

Ideias na cabeça, um Mac por perto e uma certeza: fazer cinema

Por Sérgio Miranda*

Quando decidiu largar o curso de Arquitetura para seguir sua verdadeira vocação, o cinema, João Velho não imaginava que teria de cruzar muito mais do que a Baía de Guanabara, já que, no final dos anos 1970, o único curso para essa área ficava em Niterói. Nascido no bairro das Laranjeiras, perto do campo do Fluminense, João Velho ultrapassou também o descaso do mercado para quem se aventurava em estudar cinema. Acabou indo parar na TVE do Rio e depois na Rede Globo. “Essa experiência foi importante porque foi uma das primeiras a permitir o casamento entre cinema e TV no país, aliás, uma marca da minha carreira”, relembra.

Depois de formado, dirigiu alguns curtas e voltou para a TV, principalmente na área de documentários. E foi em 1991 que encontrou o Macintosh pela primeira vez. “Quando a Apple lançou sua arquitetura de software para aplicações multimídia chamada QuickTime, percebi que aquilo ia mudar toda a pós-produção de vídeo e a minha vida também”, conta o cineasta. Hoje um especialista na área, com um livro e diversos artigos publicados (inclusive na MAC+), ele é professor na ESPM-RJ e terminou seu primeiro curta-metragem documentário, batizado de iCandomblé, e já prepara uma nova produção. Veja a seguir os melhores momentos da entrevista com João Velho.

MAC+ Qual foi a parte mais difícil na criação do documentário iCandomblé, a gravação propriamente dita ou antes, para captar investimentos, por exemplo?

João Velho A captação de investimentos para curta-metragem, especialmente para aqueles que são finalizados em 35 mm, quase sempre está atrelada a verbas de editais. Fora disso, há apenas a via do curta bancado e produzido a custo quase zero em vídeo digital, por realizadores e coletivos de pessoas, valendo-se de parceria com produtoras, empresas de aluguel de equipamentos etc. Uma estratégia de guerrilha. A tecnologia de vídeo digital tem muito a ver com isso, porque permitiu uma espécie de democratização dos meios de produção audiovisual. Como o projeto do iCandomblé era para 35 mm, insisti nos editais de patrocínio do Ministério da Cultura e da Petrobras. Nisso contei com a ajuda inestimável do produtor Rico Cavalcanti, um antigo colega de faculdade. De um edital para o outro, fomos melhorando alguma coisa, até que o projeto saiu. Mas a verdade é que não é fácil ganhar um edital de patrocínio de curtas. Até o iCandomblé, nunca tinha ganhado nenhum. Talvez não tivesse apresentado projetos tão bons. Mas o fato é que a concorrência é muito grande. Coisa de 300 pra 1 ou mais.

MAC+ De onde veio a inspiração para esse documentário?

JV O projeto resulta diretamente da minha vivência pessoal como adepto do Candomblé. Eu conhecia pessoalmente a maior parte dos entrevistados. O processo de globalização da religião dos orixás, que é o tema do filme, atingiu em cheio a minha casa de santo, que fez diversas pontes com sacerdotes de Cuba e da Nigéria. Isso teve um impacto tremendo na minha comunidade religiosa. Quando percebi o alcance do que estava ocorrendo, surgiram inquietações ao mesmo tempo de cunho espiritual e intelectual. Fiquei curioso para saber o que significava tudo isso e o que esse fenômeno poderia acarretar para o culto aos orixás no Brasil e no resto do mundo. E a linguagem cinematográfica, que é a minha linguagem pessoal de expressão, foi a maneira que encontrei para tentar dar forma a esses questionamentos. Inicialmente, imaginei um longa-metragem documental com filmagens na Nigéria, nos Estados Unidos, em Cuba e no Brasil. Mas, por uma questão de estratégia, pensada juntamente com meu produtor, optei por começar o projeto com um curta mostrando o fenômeno da globalização do Candomblé localmente, público. Eu diria até que estamos em um bom momento, tateando a possibilidade de uma nova política industrial para o setor, modelos de negócio sustentáveis e caminhos estéticos que buscam conexões com o grande público.

MAC+ Como o Mac surgiu na sua vida e como ele facilitou seu trabalho?

JV Minha história com a plataforma Apple vem de quando o Mac ainda era raridade no Brasil, para poucos, gente de design, editoração, artes visuais, computação gráfica e música. Comecei com um modelo Classic nos idos de 1990. Depois veio o LCII. Tudo por influência de meu irmão, Luiz Velho, pesquisador de computação gráfica, que já era adepto dos inventos da Apple. O momento decisivo dessa minha história com o Mac foi em 1991, quando foi lançada a arquitetura de software para aplicações multimídia da Apple, o QuickTime. Eu estudei muito tudo que veio na esteira do QT (que está fazendo 20 anos de existência esse ano). Meu primeiro estúdio de pós-produção foi montado em 1995, com um Power Mac 9500 e uma plaquinha de vídeo com interface de videocomposto de um fabricante chamado Miro. Minha vida profissional mudou radicalmente com essa estrutura de trabalho. As pessoas estranhavam que eu tivesse uma ilha de edição na minha casa. Com certeza, fui pioneiro nisso aqui no Rio.

MAC+ Hoje, qual sua estação de trabalho?

JV Ainda mantenho a mesma que montei para editar o iCandomblé: um Mac Pro dual quad-core 2.8 GHz com modestos 4 GB de memória RAM, incluindo uma placa BlackMagic Decklink HD, um disk array de 4 TB rodando RAID 6 por hardware e porta de comunicação SAS. Tenho ainda muita coisa adicional para armazenamento em disco rígido e vários periféricos óbvios tipo scanner, tablet, dois monitores RGB, dois monitores de referência NTSC SD e HD, um deck Betacam, um deck HDV/DV, e monitores de áudio Roland. Na realidade, gostaria de ter um equipamento que ocupasse menos espaço na minha casa. Também tenho um Macbook Pro de 15” que comprei no final de 2010 e que tenho vontade de usar mais.

MAC+ Além de cineasta, você também dá aulas. Como é essa experiência?

JV Sou professor da ESPM-RJ; na graduação, dou aulas de edição de vídeo no Final Cut Pro e motion graphics no After Effects. Também dou aulas de produção de vídeo no curso de especialização Portfolio. Hoje em dia, ensinar virou uma das minhas ocupações principais. Começou naturalmente, em função do meu domínio de novas tecnologias de vídeo digital e minha bagagem de cinema e TV. Me ajuda muito a fechar as contas do mês e ficar com uma certa folga. Nunca tinha me imaginado como professor, mas aconteceu e foi bom para mim. No caso das aulas de edição no Final Cut Pro, sigo uma adaptação de métodos oficiais da Apple de ensino do programa. Para as aulas de Motion Graphics no After Effects, criei uma metodologia própria a partir dos meus estudos de mestrado.

No terreiro O processo de gravação não foi fácil, com a necessidade de conjugar datas entre entrevistados e equipe. Por isso, o filme foi feito aos poucos

MAC+ O mundo do vídeo digital mudou muito nos últimos anos e você participa dele desde o princípio. Como você vê essa evolução?

JV No final das contas, foi tudo muito rápido. Destaco as tecnologias de compressão de vídeo, as ilhas de edição não linear e a criação do formato de vídeo DV. Essas foram as pedras fundamentais. A verdade é que o que havia de mais importante para acontecer, como virada de paradigma tecnológico, já aconteceu: a passagem do analógico para o digital e, depois, a transição da definição standard para a alta definição. Agora tem uma onda de substituição da fita por cartão de memória na captação, que resolve e, ao mesmo tempo, cria problemas. Na área de armazenamento de dados, creio que caminhamos para os drives de estado sólido. A nova porta Thunderbolt, da Intel/Apple virá com força no vídeo digital. Também destaco as ferramentas de color grading, que estão ficando mais populares. Outra novidade recente são as filmagens com câmeras DSLR com sensores full-frame ou quase isso. A indústria também está investindo muito na captação e exibição em 3D, última moda de Hollywood. Eu, pessoalmente, não curto muito o 3D, a não ser em filmes especiais, com uma proposta visual que o justifique, como o Avatar. Em termos de tecnologia em vídeo digital, o céu é o limite. Quanto mais memória e processamento, inclusive na placa gráfica, mais qualidade, recursos e rapidez no trabalho.

MAC+ Como o Final Cut mudou sua vida como cineasta? Qual a importância dele na sua produção?

JV Acompanho o Final Cut Pro desde sua gestação, quando ainda era um projeto da Macromedia, depois vendido para a Apple. Fiz as resenhas de todas as suas versões para a Macmania e a MAC+. Hoje é quase uma extensão operacional de mim mesmo. Foi com o Final Cut Pro descobri o prazer de editar para os outros e para mim.

Filme exposto Pouco antes do lançamento, o Espaço Oi, no Rio de Janeiro, montou uma exposição com o curta metragem de João Velho

MAC+ Quem mais aqui no Brasil está usando o Final Cut para produzir filmes?

JV A grande maioria das produtoras do Rio e de São Paulo adotaram o Final Cut Pro. Mesmo as emissoras de TV aderiram. A era do Avid passou, quem diria. Simplesmente tenho a sensação de que todo mundo usa FCP no Brasil. Tem uma galera fã de PC e do Adobe Premiere, mas acho que é minoria e que gostaria de migrar para o FCP. A Apple está muito bem posicionada no mercado de pós-produção de vídeo digital, inclusive para cinema.

MAC+ O iCandomblé não vai ficar apenas nesse documentário. Como será a continuação ou ampliação do projeto?

JV O projeto prevê pelo menos três formatos: um curta, que ficou pronto, um média e um longa-metragem. Também há a possibilidade de uma série de médias para TV. Inesperadamente, no ano passado, recebi um convite para fazer uma videoinstalação com o mesmo material no Oi Futuro. E deu muito certo. Fiz o lançamento do filme lá. Pretendo fazer mais coisas nessa linguagem. Mas, no momento, estou trabalhando com o projeto do longa enquanto tento divulgar o curta em festivais. Se quisesse, poderia editar uma versão de média só com o material que já tenho. Mas ainda não me deu o “clique” de voltar a mexer no material. Tenho também 15 horas de depoimentos feitos em DV em um congresso internacional dos orixás em 2005, que usei na videoinstalação e que acho que daria um livro. Tem gente da Nigéria, Estados Unidos, Argentina, Porto Rico, e outros países.

No tempo do celulóido João Velho, bem no começo da carreira, antes do vídeo digital

MAC+ E o que mais?

JV Estou cavando a versão de longa do iCandomblé, mas já estou com outro projeto na agulha: o curta-metragem de ficção Toca pra Diabo. Ele acaba de ser selecionado em mais um edital de patrocínio da Petrobras. Estou superfeliz, porque é um curta com linguagem de humor e meio musical. O roteiro é do meu amigo Juca Filho, roteirista de programas de humor da TV Globo. O curta conta a história de Sigmundo, um jovem roqueiro carioca sem talento que, meio por acaso, aceita fazer um pacto com o capeta para dar um empurrãozinho em sua carreira de guitarrista. O detalhe é que o acordo sobrenatural acaba sendo oferecido por um violeiro caipira, que Sigmundo conhece em uma viagem acidentada com sua banda amadora pelo interior de Minas Gerais. No final, essa aventura um tanto confusa acaba de forma desastrada para o rapaz. Estou a mil por hora já pensando em elenco, equipe etc. Depois de mais de 25 anos, estou voltando a fazer um curta de ficção. Também tenho um projeto de vídeo para internet que é meio sigiloso ainda, mas que se rolar apoio, tem tudo para dar muito certo.

MAC+ Quais as dicas para quem está começando na vida de cineasta?

JV Se juntar com uma galera e ficar bom numa função que não seja a de dirigir filme. Hoje eu teria começado por edição e montagem. Não ter pressa, não forçar o nascimento dos projetos, ao contrário, deixá-los surgir. Acalentar e cuidar bem das boas ideias. Ser humilde. Fazer filmes em um esquema de produção guerrilheira, com parcerias de todo o tipo. Aprender a fazer e ter muita paciência para lidar com os editais de patrocínio. Ler muito, sobretudo livros de história e linguagem cinematográfica, linguagem visual, artes plásticas, teatro e dramaturgia, romances, roteiros de cinema. E ver muitos clássicos do cinema.

*Matéria originalmente publicada na MAC+ 58.

2 comentários

  1. Juliano Beccari comentou 10:02 às 24 de setembro de 2011

    Eu sou músico há 20 anos, e agora resolvi juntar o cinema nas minhas ambições. Tenho lido algo a respeito mas as palavras do João sobre produção guerrilheira me fazem acreditar mais que basta ter a idéia pra realizar um bom trabalho. Gostei muito da matéria!
    Abraço

  2. mauro comentou 11:13 às 6 de outubro de 2011

    gostei da materia, principalmente das suas contradições. Ele diz pra ser humilde mas suas declarações sobre a apple são um tanto arrogantes! Quem é pioneiro ñ diz que é, são os outros que te reconhecem como figura pioneira. O steve foi pioneiro, a apple pode ter sido mais que uma empresa pra ele, mas o que interessa se para o consumidor fica uma porcaria? Na verdade acho isso ai tudo muito legal mais o mundo so piorou com essa porcalhada de raciocinio…

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