WWDC 2011 e os novos sistemas operacionais Apple
Por Rainer Brockerhoff, direto da WWDC 2011.
Os painéis na entrada já confirmavam o que era previsto: o foco da WWDC seria software. Lion (Mac OS X 10.7) para o Mac, iOS 5 para os “dispositivos” e o iCloud interligando tudo. Steve Jobs subiu ao palco devagar e sob muitos aplausos; muito magro e, inicialmente, com a voz um pouco fraca. Depois de poucos minutos chamou seus vices para apresentarem as novidades dos sistemas. Não vou me ater aos detalhes em si, mas às suas implicações.
Olhando o Macintosh e iOS, é interessante a evolução. As vendas de PCs nos últimos 12 meses sofreram pequena queda; ao contrário, as vendas de Macs cresceram de forma inédita. Também contrariando a tendência dos outros fabricantes, os dois sistemas da Apple, que já tem a base Unix/BSD em comum desde o início, estão convergindo através do intercâmbio de tecnologias – o Lion contém aperfeiçoamentos que nasceram do iOS, e vice-versa. Isso, olhando a infra-estrutura; as interfaces de usuário estão tendo um intercâmbio muito mais modesto e cauteloso. O Launchpad, por exemplo, tem muita coisa em comum com a tela de aplicativos do iOS – mas agora vemos que são, na verdade, uma decorrência imediata da App Store de ambos os lados: um local simplificado para leigos localizarem os programas comprados.
Outras tendências são ditadas por avanços no hardware. Os trackpads com tecnologia multitoque hoje disponíveis nos MacBooks (e o Magic Trackpad para os computadores de mesa) permitem ao software distinguir gestos mais elaborados, e assim, ambos os sistemas estão refinando seu uso de gestos. Com base na experiência dos iPods, iPads e iPhones, a Apple observou o que funciona e o que não funciona nestas interfaces e, desse modo, pode transferir o que se aplica aos notebooks e computadores de mesa.
O foco do computador também evoluiu muito nestes 26 anos e pouco de Mac; já não é mais usado só por entusiastas e especialistas. A grande massa de consumidores usuários de iPhones e iPads raramente se dá conta que seu amado dispositivo portátil é um computador que excede em capacidade e velocidade muitos supercomputadores de décadas passadas. Agora, a idéia é que, quando esse pessoal quiser uma tela maior ou mais capacidade, já conhecerão boa parte da simbologia e do gestual para interagir com o computador – e, daqui a uns anos, no final desta evolução, suponho que o próprio conceito de “computador” como tal terá desaparecido.
Notem, também, como os desktops e laptops agora são simples dispositivos, equiparados aos iPhones e iPads; não se precisa mais ter um computador para ativar seu dispositivo, e a nuvem interligará todos os seus aparelhos.
Outro conceito que está desaparecendo – pelo menos para os usuários – é de “sistema de arquivos”. Onde nós, veteranos do Mac, navegamos pelas páginas do Finder para achar um aplicativo, um novato agora usará o Launchpad; muitos usuários recém-chegados preferem usar o Spotlight para isso, coisa que nunca me ocorreu fazer, porque ainda tenho o modelo mental de pastas e subpastas!
O iCloud, na verdade, é um canal que a Apple vai usar para esconder ainda mais o sistema de arquivos subjacentes. Fazer documentos de vários tipos aparecer magicamente em várias telas ajuda a esconder ainda mais a infraestrutura.
Mas, na verdade, o foco da WWDC é exatamente a infraestrutura – e, infelizmente, é claro que não posso entrar em detalhes a respeito (todas as seções para os desenvolvedores são protegidas por acordos de não divulgação, os NDAs). O que posso dizer é que, na minha análise, os novos recursos são grandes incentivos a programadores novos a entrar nas plataformas da Apple, já que a mecânica de criar software está ficando muito mais acessível. Notem também que quase tudo que foi anunciado é grátis ou, no caso do Lion, muito mais barato que anteriormente.
Assim como os primeiros Macs catalisaram uma grande massa de gente que, subitamente, viu que poderia fazer tipografia, layout, gráficos, etc. sem ter que aprender as filigranas que as tecnologias antigas exigiam, veremos agora o mesmo fenômeno na produção de software. Igualmente, haverá, potencialmente, um tsunami de produtos inferiores produzidos em poucas semanas por pessoas inexperientes – e agora entendo um pouco melhor porque a Apple já inaugurou os App Stores com a idéia de controles rígidos de qualidade. Por outro lado, os programadores experientes terão recursos para produzir software de primeiríssima qualidade.
Essa WWDC, a meu ver, é um divisor de águas; é onde a visão de Steve Jobs e sua equipe para os próximos anos está sendo vislumbrada. Não sabemos se Steve estará aqui no ano vem, mas o caminho foi traçado e sua equipe terá condições para continuar na sua ausência.
Mesmo do ponto de vista logístico, creio que esta será uma das últimas WWDCs no formato atual. Não há sala de eventos maior na região. O afluxo de interessados só vai aumentar; esse ano as entradas esgotaram em poucas horas! Será interessante ver como resolverão esses problemas nos anos seguintes.
Rainer Brockerhoff é desenvolvedor de Mac desde os primórdios e é colaborador da MAC+ desde a edição número 1.
Fotos retiradas do Engadget.



