Um quem-é-quem das fontes em seu Mac
Tempos atrás, um estudante de design gráfico veio me mostrar um trabalho de faculdade que consistia em criar um design impresso com um tema medieval. Logo imaginei umas letras góticas ou unciais bem trabalhadas, desenhos imitando iluminuras e xilogravuras, pergaminhos, dentre outras coisas. Em vez disso, as letras eram típicas do século 19. Que fosse possível confundir duas épocas tão diferentes, só porque uma letra da Era Industrial tem uma cara “antiga” para alguém do século 21, é algo que me fez pensar muito desde então.
Se você tem bom olho para tipografia, já deve estar cansado de ver erros tipográficos em filmes ambientados no passado: letras sem serifa no período barroco, Helvetica durante a Segunda Guerra Mundial, jornais de um século de idade com o texto em Times e o design do cartaz do filme Moulin Rouge remetendo a um estilo gráfico de 70 anos antes. Contra tudo isso, é necessário responder assim: ter nascido há pouco tempo não justifica a ignorância.
Se você precisa executar um trabalho requerendo texto com aparência retrô, seja um folheto ou um logo, ter à mão as referências visuais não será suficiente. Você precisa entender o contexto histórico dos tipos para utilizá-los de uma maneira que pareça um pouco mais autêntica.
Felizmente, o Mac OS X já vem com um conjunto de fontes tipográficas com boa variedade estética, e os aplicativos da Adobe e Microsoft reforçam o bolo com mais tipos. A única coisa necessária é distingui-los também por contexto histórico, e não apenas por características técnicas como serifado, monoespaçado ou cursivo. A lista a seguir traz uma descrição e comentários práticos sobre seu uso.
Senta que lá vem história… de tipos.
Antiguidade e Idade Média
Lithos Skia
Baseados nas inscrições gregas clássicas. Lithos foi um grande sucesso nos anos 90; Skia, com conceito similar, apareceu em alguns produtos da Apple.
Herculanum
Criado pelo suíço Adrian Frutiger (pai de Univers e Frutiger) com base em antigas inscrições romanas.
Trajan
Cópia das belíssimas letras da Coluna de Trajano, gravadas no ano 113 e consideradas o fundamento da tipografia ocidental. Utilizado em nove dentre 10 títulos de filmes de Hollywood. Devido à sobreexposição, deve ser empregado com sensibilidade.
Charlemagne
Letra de título em caixa alta com inspiração medieval, bastante utilizada em capas de livros.
Lucida Blackletter, Blackmoon
Góticas, porém muito mais legíveis que o famoso estilo Fraktur, que não está representado aqui.
Renascentistas e barrocos
Garamond, Adobe Garamond, Arno, Garamond Premier
Baseados nas elegantes letras utilizadas nos primórdios da imprensa, no século 16, mas se você quiser realmente reproduzir o estilo, deve utilizar a Arno Pro ou a Garamond Premier. As outras são releituras modernas, bastante descaracterizadas.
Lucida Calligraphy, Monotype Corsiva, Apple Chancery
Letras no chamado estilo chanceleresco, cultivado por calígrafos dos séculos 15 e 16 e inspirador original das letras itálicas.
Big Caslon
Baseado vagamente em designs ingleses do século 17, utilizado em títulos e outras aplicações que pedem letras classudas e grandes. Popular na publicidade nos anos 70, hoje parece extremamente datado.
Baskerville, Baskerville Old Face
Criado pelo designer britânico de mesmo nome no final do século 18, Baskerville é bastante proporcional e estável, com finos detalhes.
Didot, Bodoni Seventy Two
Tipos limpos e elegantes, da década de 1790, na era do Iluminismo. Didot é similar ao Bodoni, porém mais refinado; hoje é muito usado em moda. Bodoni Seventy Two é muito descaracterizado; prefira Didot.
Era Industrial
Bernard Condensed, Bookman Old Style, Bordeaux Roman Bold, Brittanic Bold, Century, Century Schoolbook, Gloucester Extra Condensed, Modern No. 20, Onyx
Feios e rudes, são típicos dos livros e jornais da segunda metade do século 19 e começo do século 20. É difícil utilizá-los em outros contextos.
Blair, Copperplate Gothic, Engravers
Com origens no século 19, lembram os textos gravados à mão em placas de bronze e monumentos. São favoritos para cartões de visitas, convites etc.
Desdemona, Harrington, Eccentric STD, Hobo
Representantes do estilo Art Nouveau. Não servem muito para outras aplicações.
Eduardian Script, Bickham Script, Snell Roundhand
Belíssimos tipos que reproduzem a escrita cursiva com bico de pena. É um estilo que ainda se utiliza em diplomas, convites de casamento e produtos de luxo.
Birch, Blackoak, Mesquite, Playbill, Poplar, Rosewood, Wide Latin
Tipos de madeira com nomes de árvores, usados em anúncios e cartazes do século 19. Identificados com o Velho Oeste, inúteis em outras aplicações.
Goudy Old Style
Criado nos EUA na década de 1910, é bonito, porém datado. Estava na moda nos anos 80, em embalagens de produtos alimentícios e títulos de livros.
Modernistas – século 20
News Gothic
Muito popular ao longo de todo o século. Combina com Franklin Gothic, criação do mesmo designer, o norte-americano Morris Fuller Benton.
Gill Sans
Criado em 1926-28 pelo artista gráfico inglês Eric Gill, tem um estilo inconfundivelmente britânico.
Bank Gothic
Tipo Art Déco criado em 1930 por Benton. Com seu jeito imponente, foi redescoberto nos anos 90.
Jazz, Mona Lisa Solid, Santa Fe, Savoye
Tipos decorativos representantes do Art Déco, estilo dominante nos anos 30 e 40.
Braggadocio
Tipo Art Déco relacionado ao futurismo dos anos 30. Não funciona muito em outros contextos.
Futura
Tipo geométrico criado pelo alemão Paul Renner durante o modernismo dos anos 20, influenciado pelas ideias da Bauhaus. Foi intensamente utilizado nas décadas de 30 a 60, perdendo força desde então, mas ainda tem visibilidade no mundo fashion.
Rockwell
Um tipo “Slab Serif” ou “Egyptian”, característico dos anos 40 a 70. Combina com Futura.
Helvetica
Lançado em 1957 na Suíça, é baseado em designs sem serifa do século 19, chamados “Grotesk” na Alemanha e “Gothic” nos EUA. (Não use Helvetica para simular um texto anterior a 1957! Use Akzidenz-Grotesk.) Virou febre nos anos 60 e 70, virando sinônimo de modernidade. Mas hoje é datado e, para piorar, confundido com Arial. Apesar disso, continua forte e influente. A versão Helvetica Neue (pronúncia: “nói”) contém dezenas de variações, das quais dez vêm instaladas no Mac OS X. Seu maior concorrente e “parente” mais próximo é Univers, também criado por um suíço (Frutiger).
Heattenschweiler, Impact
Tipos no estilo “título de jornal” com cara de anos 60 e 70. Bastante versáteis.
Optima
Belo e delicado, foi criado pelo calígrafo alemão Hermann Zapf nos anos 50. Um favorito das indústrias de beleza e farmacêuticos. Transmite elegância, refinamento e solidez. Como curiosidade, nenhum de seus contornos é uma linha reta.
Eurostile
Criado pelo italiano Aldo Novarese em 1962, suas formas quadradas e cantos arredondados evocam a modernidade da época: televisão, móveis de fórmica e acrílico, a corrida espacial.
Decorativos
Perpetua Titling
De autoria de Eric Gill, é específico para títulos e inscrições solenes, como placas e monumentos. Combina bem com Times New Roman, com o qual compartilha detalhes de estilo.
Cochin
Tipo elegante, com normal e itálico extremamente dissimilares. Dá as caras em materiais de luxo.
Palatino, Book Antiqua
Palatino, de inspiração renascentista, é um dos tipos mais populares lançado nos anos 50. Combina com Optima, do mesmo autor. Book Antiqua é um clone inferior e deve ser evitado.
Colonna
Tipo decorativo com um classicismo italiano.
Cracked
Único exemplo na lista de tipo “grunge”, isto é, feito de letras desgastadas. Baseado em Franklin Gothic.
Princetown
Letras típicas dos logos de equipes esportivas das universidades norte-americanas. Similar ao Machine.
Zapfino
É um alfabeto caligráfico de Hermann Zapf, criador de Optima e Palatino. Infelizmente, a versão que vem no Mac OS X está incompleta: no total são quatro variantes. Exige mão-de-obra no espaçamento entre letras.
Populares
American Typewriter
Popular nos anos 70 e 80, datado e esquecido hoje. Não é uma autêntica “letra de máquina de escrever”, pois os caracteres não são monoespaçados.
Marker Felt
Tipo que lembra a escrita de cartazistas de lojas, é um dos poucos manuscritos não-cursivos palatáveis.
Portago, Stencil
Inspirados nas letras de estêncil utilizadas em cargas e pacotes. Stencil foi popularizado pelas letras transferíveis nos anos 70 e, por esse motivo, é terrivelmente datado.
Brush Script, Mistral
Nos anos 50, o design publicitário utilizava muitas letras pinceladas à mão nesse estilo. Esses tipos representam bem o período. Nos anos 70, tornaram-se sucessos em letras transferíveis. Brush Script foi vítima do excesso de exposição.
Cooper Black
Tem cara de publicidade antiquada dos anos 20 e 30. Teve dois revivais: nos anos 60 e nos 80.
Bauhaus 93
Não é baseado na Bauhaus. Trata-se de um design moderno (e muito datado) que teve sua vez no final da década de 1970.
Papyrus
Tipo caligráfico que passa a sensação de aconchego e tem emprego em embalagens, cartões etc.
Tekton
Simula a escrita de mão de um arquiteto.
Bradley Hand
Letra manuscrita informal. Uma alternativa mais decente à Comic Sans MS.
Utilitários e contemporâneos
Times New Roman
Criado para o jornal inglês The Times em 1931. É útil e inofensivo e tornou-se o tipo de texto mais popular do mundo. O excesso de exposição gerou um desinteresse injustificado.
Calisto
Uma das melhores opções para livros e outros textos longos quando a impressora não é lá essas coisas.
Chaparral Pro
Elegante tipo de texto com serifas quadradas e pouca variação na largura das hastes, como Scala e Joanna. Remete aos anos 90.
Bell, Hoefler, Text, Minion Pro, Lucida Bright, Lucida Fax
Tipos sóbrios e esteticamente neutros para uso em textos longos. Transmitem um ar formal e sério.
Footlight Light, Nueva
Comuns em capas de livros a partir dos anos 90, são tipos neoclássicos com toques de caligrafia.
Euphemia UCAS, Lucida Sans, Lucida Grande, Myriad Pro, Stone Sans
Tipos sem serifa neutros e funcionais. Representam um estilo contemporâneo chamado neo-humanista. A fonte padrão do Mac OS X é Lucida Grande. Sucesso da Adobe nos anos 90, Myriad é muito parecido com Frutiger, praticamente uma cópia.
Eletrônicos e mecânicos
Courier, Andale Mono Letther Gothic, Lucida Sans Typewriter, Orator, Prestige Elite
São monoespaçados, isto é, todos os seus caracteres têm a mesma largura. São necessários para aplicações técnicas, como listagens de programas. Courier foi criado para máquinas de escrever, mas acabou adotado como “fonte último recurso”, aquela que a linguagem PostScript exibe quando a fonte indicada no layout dá problema. Felizmente esse tipo de ocorrência tornou-se raro, mas as más memórias são um bom motivo para não utilizar Courier.
OCR-A
Criado por Adrian Frutiger para aplicações de leitura automática de textos por máquinas.
Synchro
Tipo decorativo que lembra painéis luminosos e telas de videogames e computadores antigos.
Charcoal, Chicago, Geneva, Monaco
Criados pela Apple e otimizados para a tela do computador. Não ficam bonitos impressos. Monaco é monoespaçada.
Georgia, Tahoma, Verdana, Trebuchet MS
Desenvolvidos pela Microsoft nos anos 90 e também específicos para a tela do computador. Também são decentes para textos impressos, mas falta-lhes estilo. Tahoma é uma versão mais estreita de Verdana. O Office 2008 traz um novo jogo de tipos para tela, bem mais interessantes. São: Calibri, Cambria, Candara, Consolas, Constantia e Corbel.

Como visualizar fontes: além do Font Book, o programa simples que vem instalado no Mac OS X para gerenciar fontes, você pode usar o Font Explorer (freeware, http://www.fontexplorer.com), que fornece visualização instantânea para quaisquer fontes selecionadas na lista. Além disso, o software é também um gerenciador de fontes completo, com várias outras funções. Também pode-se buscar no Finder a pasta Fonts e olhar o conteúdo como ícones (abaixo) ou como Cover Flow no 10.5; cada fonte aparece representada por uma amostra com dois caracteres.
Mario Amaya é um tipo de cara que às vezes faz tipo, mas é uma boa fonte de informações.


Oi, Mario, tudo bem?
Achei bacana a ideia do texto, mas sério, não entendi direito… Você falou das épocas dos tipos mas quando vai descrevê-los, não explica, como na Marker Felt: “Tipo que lembra a escrita de cartazistas de lojas, é um dos poucos manuscritos não-cursivos palatáveis.”
[ ]s
Rogério
Comecei a ler o artigo e não me dei conta que eram especialistas em tecnologia falando sobre tipografia. E pior: dizendo o que pode funcionar ou não.
Bobagens como “Georgia sem estilo” e “Papirus em embalagens” mostram o que aquela velha máxima interneteira é uma das maiores verdades universais:
“Cada um no seu quadrado.”
Daniel, este artigo NÃO É PARA VOCÊ. É para pessoas perfeitamente leigas que precisam de uma solução rápida e à prova de falhas quando confrontadas com uma tarefa de design, inclusive e especialmente quando o chefe manda fazer uma apresentação corporativa “bem bonita”, “para amanhã às 8h” e sem a assistência de vivalma durante a madrugada passada em claro.
No que me concerne pessoalmnte, eu não preciso provar nada acerca de meu currículo e conhecimento na área do design gráfico. Deixo somente a pergunta curiosa: o que você estava fazendo nos anos de 1987 e 1992? Gastar verbo com um artigo de utilidade reconhecida, depois de 20 meses publicado, fala mais de você do que de mim.
Rogerio, no caso particular das fontes baseadas em lettering manual, tem havido um forte renascimento do estilo – bem representado em várias capas da própria MAC+ pelo designer Sérgio Bergocce, que é um grande fã desse estilo em particular. Se você lhe perguntar a época dele, a resposta será: “pelo menos o século passado inteiro”.